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segunda-feira, março 23, 2009

Dia Mundial da Poesia

Antes da Aurora

E os cavalos desmoronaram o horizonte,
ecos a escorrer úmidos por pedras basilares,
e silvaram, a cortar a madrugada,
agrestes palavras, e bárbaras,
a antecipar-lhe as vozes sibilantes.

A rainha, calva, movia em dificuldades
a língua tensa, entre seixos de ouro
que na boca lhe rolavam,
e todos em seu redor se comprimiam,
madrugada vermelha e escura,
silenciosa a rumor de pedras lançadas.

E, entre o relinchar feroz dos corcéis
e a amarela dança premonitória
e os sacerdotes violentos de presságios,
a rainha, eleita e devorada,
a futura mãe carnívora,
tranças louras d'uma história sincopada,
ensaiava recuperar a voz do Sol,
pedras de ouro p'la boca,
frémito cru, e temeroso,
de que tal demência a arder do astro
se volvesse eterna, enfim, e fatal.

E agitava-se emudecida,
transportada em revoada,
corcéis inquietos e trepidantes,
povo de antes da aurora
a galopar por anteontem de Tróia,
a espezinhar ervas em Atenas, amanhã,
e a galgar, por entre gritos,
o Mar aberto de referências,
a singrar no que Tartessos será
e Roma se chamará, futura,
ávidos de manhãs serenas, em aflições já hoje pressentidas,
línguas rudes a ter de articular
em auroras inquietas, e loucas, e imprevisíveis,
as antenascidas antiguidades.

Luis

HEART OF WAX

segunda-feira, setembro 24, 2007

mar, diz o mar...

Imagem retirada daqui



Ontem fui ao teatro ouvir poemas com cheiro de maresia.

Hoje fiquei em casa e vi
O Carteiro de Pablo Neruda outra vez.

Por isso este poema aqui hoje para vocês:


Pablo Neruda


Inicial


O dia não é hora por hora.

É dor por dor,

o tempo não se dobra,

não se gasta,

mar, diz o mar,

sem trégua,

terra, diz a terra,

o homem espera.

E só

seu sino

está ali entre os outros

guardando em seu vazio

um silêncio implacável

que se repartirá

quando levante sua língua de metal

onda após onda.


De tantas coisas que tive,

andando de joelhos pelo mundo,

aqui, despido,

não tenho mais que o duro meio-dia

do mar, e um sino.


Eles me dão sua voz para sofrer

e sua advertência para deter-me.

Isto acontece para todo o mundo,

continua o espaço.


E vive o mar.


Existem os sinos.



quarta-feira, março 21, 2007

Dia Mundial da Poesia

Homenagem a Ary dos Santos, poeta da revolução deliberadamente esquecido
Poeta castrado não! (José Carlos Ary dos Santos)


Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!


Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegar a poesia

quando ela nos envenena.


Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:


Da fome já não se fala

- é tão vulgar que nos cansa -

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?


Do frio não reza a história

- a morte é branda e letal -

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?


E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

- Um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

- Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia!


Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

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