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sábado, março 14, 2009

José Mário Branco (de novo)


Do Jornal Online

PASSA A PALAVRA

A revolução por dentro das palavras (de novo)

A acção (o que fazemos, como o fazemos) pode transformar a realidade. O pensamento permite-nos compreender a realidade e traçar caminhos para intervir nela. E o discurso (as palavras que usamos para comunicar com os outros) é o resultado dessas duas coisas: acção e pensamento.

Por José Mário Branco

Para tentar compreender a realidade concreta, o pensamento é obrigado a deslocar-se para o campo dos conceitos abstractos; de u

ma soma de factos particulares, tentamos extrair regras e relações gerais. Mas esta relação da abstracção com a realidade não é directa nem automática; não é garantia de rigor e, muito menos, de compreensão por parte dos outros. Neste processo podemos separar-nos facilmente da realidade se não formos aferindo o pensamento pelos factos objectivos que são o seu ponto de partida. Essa aferição tem de ser feita por outros meios, que não o pensamento abstracto - meios práticos (a nossa actuação), meios discursivos (a comunicação que é validada pelos seus dois lados, emissor e receptor) e meios éticos (que aferem o que dizemos pelo que fazemos, num sistema de valores). A importância do segundo destes aspectos, a comunicação, é muito fácil de identificar, pela negativa, na experiência dos grupos revolucionários em Portugal. Com ele se re

laciona a tendência para se pensar que toda a realidade corresponde à ideia que dela se faz, e concluir que basta enunciar regras gerais, palavras de ordem, meras construções mentais, para transmitir aos outros a sua pertinência e a sua justeza. É uma tendência de contornos esquizóides, na medida em que favorece a criação de pequenos mundos fechados e sectários. Quantas vezes nos acontece partilhar as mesmas ideias com outras pessoas e, no entanto, não haver entendimento entre nós, porque as palavras que usamos para definir essas ideias se tornam um obstáculo?

Uma vez, em 1975, durante o processo revolucionário a que os brasileiros chamam Revolução dos Cravos, um amigo meu, revolucionário comunista, foi desenvolver e organizar a luta política em Trás-os-Montes (interior nordeste de Portugal) onde, pensava-se, as pessoas estavam muito dominadas pelas ideias reaccionárias dos padres e dos caciques ex-fascistas. Foi para a região e, numa tasca de aldeia, pôs-se à conversa com trabalhadores do campo que ali estavam a beber e a conviver. Foi conversando sobre a vida “em geral” e lentamente, à medida que iam estando de acordo sobre as ideias simples (democracia, liberdade, justiça social para acabar com diferenças entre pobres e ricos), ele ia explicando “os nomes dos bois”: isto é o socialismo, aquilo é o comunismo, aqueloutro é a revolução, etc. No fim da conversa, um velhote virou-se para ele, e disse: “Essas coisas que nos explica são importantes; eu concordo com elas, concordo que a nossa sociedade devia ser assim… Mas há uma coisa que não entendo… Porque é que, a coisas tão bonitas, você dá nomes tão feios?” Para ele, os “nomes feios” eram as palavras “socialismo”, “comunism

o”, “revolução”. O que os separava não eram as ideias, as convicções, as aspirações para a sociedade, mas sim os nomes dados a essas coisas.

As palavras acima referidas, que para mim, correspondem ao interesse profundo das classes proletárias, foram (e continuam a ser) muito deturpadas pela propaganda dos senhores do sistema, que não querem que haja essas mudanças na sociedade, e também pelos erros e os crimes cometidos em nome dessas ideias.

A luta contra a propaganda do sistema é inevitável, faz parte da luta de classes. A propaganda do sistema só se pode combater com um contínuo trabalho de esclarecimento e educação política: libertar o espírito crítico das pessoas, encontrando palavras comuns para as ideias comuns. Mas esta contrapropaganda revolucionária de nada valerá se se limitar a uma luta de palavras contra palavras. Ela só ganha sentido na criação de factos objectivos - acção política - que façam a ponte entre a abstracção e a concretude, entre a subjectividade e a objectividade, entre o modelo e a prática.

O episódio do meu amigo em Trás-os-Montes mostra que não basta explicar as coisas verbalmente: os nossos interlocutores estão sempre, quer queiramos quer não, a relacionar qualquer disc

urso com a realidade factual da vida. Se cada um de nós não o fizer também, em vez de uma abstracção capaz de criar ideias novas mobilizadoras, caímos no enunciado vazio de “cartilhas” ideológicas extraídas e afirmadas a partir de uma aplicação mecânica dos dados da história política e da experiência própria. Isso nada tem a ver com a ferramenta crítica que Marx nos legou para nos ajudar a compreender a sociedade e a intervir na sua transformação.

Temos de ser capazes de provar aos outros, na prática, que os nossos actos e os nossos métodos de actuação estão de acordo com os grandes princípios que defendemos. Temos de mostrar que existe, desde já, nos nossos actos concretos, a capacidade de realizar - agora - algo que enunciamos como projecto. Isso depende dos métodos que utilizamos na acção. Os meus actos políticos não consistem na t

ransformação que proponho (p.ex. a revolução socialista). Os meus actos políticos são a forma de relacionamento e o processo de luta que utilizo: eles é que constituem, no presente e em si mesmos, o modelo social que preconizo no meu projecto revolucionário.

E aqui intervêm, também, o que chamo “meios éticos”, que enquadram a nossa acção num sistema de valores. Os activistas da revolução não conseguirão resultados palpáveis se não forem fazendo, na sua vida pessoal, aquela revolução a que aspiram para todos. Porque as palavras não são mais do que uma representação do mundo, material ou subjectivo. A acção (o que fazemos, como o fazemos) é que pode realmente transformar a realidade. O pensamento permite-nos compreender (tentar compreender) a realidade e traçar caminhos para intervir nela. E o discurso, sendo essencial para comunicar com os outros, é o resultado dessas duas coisas: acção e pensamento.

A luta pela democracia tem de ser uma escola de democracia; a luta pelo socialismo tem de ser uma escola de socialismo; a luta pelo comunismo tem de ser uma escola de comunismo; e a luta pela transformação revolucionária da sociedade tem de ser, em si mesma, uma transformação de cada um dos indivíduos que a desejam, uma espécie de antecipação dessa sociedade nova por que lutamos, até que este processo consiga atingir uma massa crítica de indivíduos capazes de tomarem nas suas mãos essa transformação. Tal não será possível enquanto houver, em nós, contradições entre estes três aspectos – acção, pensamento e discurso – porque as pessoas, com toda a razão, desconfiarão das nossas palavras e não se juntarão a nós.

Mas há ainda outro aspecto curioso suscitado pelo debate que provocam estas e outras temáticas: de que serve debater ideias se as ideias debatidas não forem postas à prova por quem debate? Tanta história, tantos livros, tantos jornais e revistas, tantas discussões - a grande acumulação das ideias sobre a experiência -, de que podem valer se não forem, todas e cada uma delas, confirmadas ou infirmadas numa prática presente? Muitas vezes, o debate de ideias, condição indispensável da mudança, é feito de tal modo que não passa de uma fuga à acção política, o que é conseguido através da falácia de considerar que esse debate é, em si mesmo, acção política. Seja por academismo, seja por que se tiram de vez em quando umas horas para “debater”, este tipo de debate ocorre sem qualquer confronto dialéctico com a prática, com a acção, com a luta de classes.

Um revolucionário devia abster-se de defender ou atacar uma ideia sem produzir argumentos alicerçados na sua acção prática.

Imagem em destaque tirada pelo fotógrafo Luís Pavão.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Cheira-me a Revolução!

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De tempos a tempos a Kaótica deixa O Pafuncio entregue à sua sorte e muda-se para o Cheira-me a Revolução! um blogue colectivo recém-criado por um grupo que por uma feliz circunstância se encontrou no II Encontro de Blogues da Festa do Avante. O blogue é a prova viva de que apesar das maiores ou menores divergências político-partidárias, é possível unirmo-nos num projecto comum e pô-lo em acção.

Hoje foi o meu dia de estreia. Por isso vos convido a visitar o blogue, a lê-lo (dando também alguma atenção aos comentários que por lá se encontram), a deixar os vossos próprios comentários e a divulgar o blogue.

E se tiverem alguma ideia que possa abrir portas à Revolução, não hesitem em partilhá-la com este grupo. A nós cheira-nos a revolução e a vocês?

(Leia aqui o post A Revolução é para Ontem!)

quarta-feira, março 26, 2008

Termitofagias


Pobres sociedade em que as térmitas
se têm de pôr eternamente na ponta dos pés,
para mostrarem trabalho à sua insaciável Rainha.

Arrebenta

Uma associação de pais normalmente é constituída por pessoas que decidem intervir mais activamente na escola dos seus filhos. Quando não há problemas de maior, normalmente colabora com os orgãos escolares no sentido de organizar festas, angariar patrocínios e manter os pais informados sobre o que se passa na escola.

Mas uma associação de pais não se deve limitar a estas funções, também tem a função de participar mais activamente no projecto escolar, participando nos conselhos de escola/agrupamento e no conselho pedagógico, prestando depois aos pais as informações decorrentes.

Outras associações levam ainda mais longe o seu papel, sentindo a necessidade de se organizar no Movimento Associativo de Pais (MAP), no sentido de se manterem mais atentos e informados, podendo recorrer às estruturas do MAP para se esclarecerem sobre as leis, os direitos e os deveres.

Hoje em dia é difícil para os pais encontrarem tempo para se reunirem e tornou-se quase impossível os pais terem tempo para desenvolverem este tipo de actividades. Por isso nem sempre é possível formar uma associação de pais.

Com as novas legislações resultantes das políticas educativas, e com as mudanças que estas se propõem a causar na escola pública, torna-se impensável as associações de pais não esclarecerem os seus associados sobre o que se está a passar no ensino. Não o fazer é enfiar a cabeça na areia e ficar à espera que nada disto venha a trazer problemas num futuro muito próximo.

Quando uma associação de pais toma a iniciativa de informar os pais das novas leis e das suas consequências, logo surgem vozes que a acusam de estar a usar a associação de pais para fazer política. Mas nunca ninguém se queixa que o governo está a usar o Ministério da Educação para fazer política.

As pessoas fogem da política como o diabo da cruz. Provavelmente adquiriram tal asco aos políticos e à forma como estes fazem política que este termo adquiriu para a generalidade das pessoas um sentido sujo. As pessoas afastam-se naturalmente de tudo o que lhes cheire a política. E nem se apercebem que têm os pés enfiados nela e que lhes chega até ao pescoço, como um lodo do qual não podem escapar. Como Édipo fugindo do seu destino, quanto mais as pessoas se arredam da política mais a política vai no seu encalço.

As pessoas em geral fazem por ser cumpridoras e não se sentem atraídas por nada que as leve a pôr em causa. As pessoas gostam de confiar que tudo está em ordem e detestam tudo o que vier pôr em causa seja lá o que for. Desconfiam de tudo o que as possa transtornar. Por isso preferem não levantar ondas e aceitar a ordem vigente, comportando-se o mais possível como o resto do grupo, para não sairem fora do padrão.

Se alguém tenta alertar as pessoas para os perigos decorrentes de uma lei, as pessoas tendem a afastar-se e jamais acreditam na sua possibilidade de fazer cair uma por terra uma lei por mais absurda que seja. Para elas, as causas (aquelas que conhecem a palavra e o seu significado) estão fora de moda, são assunto de perdedores e hoje em dia as pessoas querem ser eternos vencedores, o que as leva a não porem nada em causa. Antes preferem adaptar-se e sobreviverem do que revoltar-se e lutar por aquilo em que acreditam.

Os dirigentes sabem disto e mostram-se confiantes: basta-lhes publicar as leis e esperar que sejam postas em prática sem reacções contra elas. Para isso contam com o apoio de todo um séquito que compactua com as ordens que vêm de cima sem as pôr jamais em causa. As pessoas são avaliadas de cima para baixo e para tal basta-lhes cumprirem as ordens que vêm de cima. Quanto mais prontamente as aplicarem sem fazerem perguntas e às vezes até mesmo dando-lhes o seu cunho pessoal ainda mais refinado, no caso de serem mais papistas que o Papa, melhor os seus superiores as avaliarão.

É por isso que corremos o risco de muitos dos Conselhos Executivos (que também serão avaliados, pelo ministério?) executarem prontamente as ordens da ministra, que por sua vez aplicará prontamente as ordens do primeiro-ministro, que por seu turno aplicará prontamente as directivas da união europeia, que por sua vez...

O que pode fazer uma associação de pais convicta de que sem a unidade dos pais e dos professores contra estas políticas a escola pública tem o seu fim anunciado? Como pode uma associação de pais dizer isto aos pais se eles não querem ouvir este tipo de discurso do desassossego, taxando-o imediatamente de "política"? Se mesmo os professores dos Conselhos Executivos cumprem e fazem os outros cumprir? E se no final os poucos que resistem ainda são olhados de lado, como gente que não se quer dar ao trabalho, como um bando de incumpridores que pagarão por não obedecerem à sinistra rainha?

Como serão olhados pelos outros pais os pais que ousem alertar, que se aliem aos professores em luta, que publicamente acusem estas políticas de serem responsáveis pela falta de interesse que os seus filhos mostram por esta escola que os desqualifica?




segunda-feira, fevereiro 11, 2008

A Malta das Cantigas

Sessão de canto livre, Coliseu dos Recreios, 1974

«Eu sei que não é fácil falar de tudo isto a esta distância, porque passou muito tempo e vocês nem sequer tinham nascido quando a parte mais empolgante desta história aconteceu. Ainda assim, eu tentei, por achar que valia a pena e por entender que, para além da qualidade mais ou menos discutível do que fizemos e cantámos, havia os valores que nos uniam e mobilizavam e que são universais e intemporais. Era um tempo em que as pessoas não valiam por aquilo que tinham e sim por aquilo que eram e pensavam, era um tempo em que não se era avaliado pelos sinais exteriores de riqueza e de poder e sim pela força dos ideais por que cada um se batia. Havia causas e sonhos, havia princípios e afectos. E eu achei que, mesmo tendo passado já tanto tempo, devia contar-vos ou recontar-vos esta história, num tempo fugaz e competitivo em que a memória parece valer cada vez menos, empobrecendo-nos assim a cidadania e a própria democracia. Talvez vocês encontrem alguém que queira ouvir esta história, de preferência ao som da música desse tempo e das vozes que lhe deram vitalidade e alegria. Zeca Afonso e a malta das cantigas talvez mereçam essa atenção e esse interesse, já que, num tempo ainda não globalizado, ajudaram, à sua maneira, a História a acontecer, com a confiança partilhada e generosa de quem canta de olhos postos num tempo melhor.»

Assim termina este pequeno livro de José Jorge Letria, Zeca Afonso e a Malta das Cantigas, da Terramar (2004), escrito em 2002. Embora tenha apenas 70 e poucas páginas e se leia rapidamente, ele é um "testemunho vivo de um tempo em que Portugal e os Portugueses viviam privados das liberdades fundamentais". José Jorge Letria não só viveu nesse tempo como foi um dos da "malta das cantigas". Aconselho vivamente a sua leitura e a sua divulgação junto das novas gerações, nas escolas e aos nossos filhos pois bem precisados estão de ouvir estas experiências que temos a responsabilidade de lhes transmitir.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

A Arte de Escolher Intervir



“Não sei por onde vou / Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí.”

Com o grito rasgado do poema de José Régio começo o meu manifesto convivencial ou a arte de resistir.

Chegou também a minha hora de dizer: Basta!!! E irei assim intervir civicamente na vida pública deste país.

Prometo resistir de forma pacífica, mas muito activa, a este permanente, sistemático e ardiloso ataque ao Sistema Educativo Português. Atenção que ainda estou a chamá-lo Sistema Educativo e não Sistema Produtivo que é aquilo em que o querem transformar. O triste é que o Ministério da Educação se tenha convertido num Ministério de Produção. O paradigma que preside e orienta as novas reformas educativas é sem dúvida o paradigma industrial, empresarial e produtivo. A transformação da escola numa empresa e do processo ensino e apren

dizagem num processo produtivo pressupõe a metamorfose do aluno em matéria prima e do professor num fabricante de objectos.

Pensava eu que o aluno era um ser humano único e irrepetível, um tesouro incomensurável que nunca poderia ser reduzido à dimensão de um objecto, pela sua transcendência e grandeza. Afinal estava enganado!

Pensava eu que a relação pedagógica se revestia de um carácter extraordinário, quase miraculoso. Julgava que o professor era muito mais que um mero executante ou manipulador de objectos. Concebia o professor como um ser especial com a mais digna e nobre missão: ajudar a formar pessoas. Confesso que estava errado nos meus pressupostos.

No inicio da legislatura, a Sra. Ministra utilizou um argumento absolutamente definidor da sua concepção de Educação. O investimento no ensino cresceu – dizia – nos últimos vinte anos tanto por cento (não me lembro quanto!) e o sucesso escolar não acompanhou esse crescimento; retirava daí o seguinte corolário: os professores são culpados e devemos fazer com que os professores produzam mais sucesso.

Para que os professores se tornem mais produtivos devem passar mais tempo nas escolas e em paralelo é necessário que os alunos também passem mais tempo a aprender. Este é o pensamento da regra de três simples ou da proporcionalidade directa. Mais tempo a produzir maior produção, maior espaço temporal a aprender maior volume de aprendizagens adquirido. Fabuloso!!! Uma ideia genial. Como é possível que não tenha sido pensada antes? Será talvez porque os alunos não são pregos, nem parafusos, nem salsichas... nem outro objecto qualquer e os professores não são produtores de pregos, nem parafusos... nem de outra coisa qualquer? Será talvez porque uma criança não é equiparável a nenhum objecto por mais precioso que este seja?

Esta ideia de que mais tempo nas escolas por parte dos alunos equivale a mais e melhores aprendizagens corresponderá à realidade? Bom se é assim tão simples, eu proponho que os alunos portugueses comecem a pernoitar nas escolas e passem também os fins de semana e férias nas instituições escolares. E desde já auguro que em vez de 22% na diminuição do insucesso escolar em dois anos, como aconteceu até aqui – segundo a ministra – atingiremos, estou certo disso, nos próximos dois anos um país repleto de jovens sábios!!!

A fórmula mágica que a Sra. Ministra encontrou pode ser a solução para as finanças públicas a curto prazo, mas tenho a certeza absoluta que não é o bom caminho para uma educação integral, saudável e digna. No imediato poupou milhões de euros e publicitou que tornou o ensino mais eficaz. Posso afiançar-lhe que, a longo prazo, destruiu um sistema de escola pública, que podia ter muitos defeitos mas tinha grandes potencialidades que acabou por arrasar e delapidar de forma irreversível.

Transferiu os problemas imediatos para o futuro. Os alunos actuais crescerão e irão ser adultos pouco equilibrados e pouco saudáveis mentalmente, e a Sra Ministra contribuiu em muito para que tal acontecesse.

Os milhões que poupou na educação, posso assegurar-lhe, que irão ser investidos no futuro, na construção de novos hospitais psiquiátricos e prisões, e esses recursos que poupou não chegarão.

A ministra tocou de forma muito imprudente e precipitada num mecanismo muito complexo que é a educação e formação das pessoas. Fez contas de merceeiro e simplificou de forma irresponsável aquilo que é enigmático e problemático por natureza. Foi uma opção!!! A Sra. Ministra é a prova provada de como uma única pessoa determinada mas imprudente pode fazer tanto mal a tanta gente no imediato e no futuro, pois as seqüelas destas decisões arrastar-se-ão por gerações.


António Duarte Morais

Escola Básica Integrada de Eixo

D' O Cartel (recebido por mail)


domingo, maio 06, 2007

«Resiste muito. Obedece pouco» (Henri Thoreau)

Vale a pena trazer para aqui a excelente intervenção que a Professora Maria do Carmo Vieira fez no Encontro em Defesa da Escola Pública de 14 de Abril, em Algés:

Levar os alunos a reflectir sobre a sua própria condição humana é um objectivo cujo cumprimento todo o professor se deveria exigir. No entanto, actualmente, tudo parece conjugado no sentido de o impedir, assistindo-se à mais completa infantilização e imbecilização dos alunos, através da elaboração de programas e esvaziamento dos seus conteúdos e imposição de estranhas pedagogias, que mais não fazem que acentuar o fosso entre ricos e pobres. É porque rejeito este status quo que sou apelidada pelo Ministério de Educação de elitista e por isso lhes respondi que elitistas seriam eles e as suas orientações, pois se não fosse a Escola a acrescentar algo ao discurso que os alunos, socialmente mais fragilizados, trazem de casa, quem o faria?

Pedagogo e intérprete da nobreza da pedagogia, o grande maestro e violinista Yehudi Menuhin salientou a importância da Cultura e da Arte no Ensino, dirigido a todos sem excepção, referindo a Escola como o lugar privilegiado para o fazer. Não se concretizando este objectivo fundamental, continua Menuhin, estaremos «a criar monstros», ou seja, pessoas insensíveis à sua própria condição humana.

Somos todos conhecedores da violência que grassa na Escola, denunciando a irresponsabilidade de quem pratica esses actos, a que se associa a ausência de valores humanistas. Na minha Escola, por exemplo, um aluno justificou candidamente que «só atirara a cabeça do colega contra a parede», quase indiferente às consequências do seu gesto brutal, de que resultou um traumatismo craniano para o seu companheiro.

A par da violência na Escola caminha a falta de exigência, com a agravante da última ser veiculada pelo próprio Ministério da Educação, cujas orientações vão no sentido do facilitismo lúdico e do recreio na sala de aula, transformando-se o professor no camarada, que sabe tanto quanto o aluno. Ao desvirtuar-se a relação Ensinar – Aprender, esquece-se a missão de um professor e o belíssimo significado da palavra «aprender», ou seja, «prender a si próprio». O que se passa com a disciplina de Português, que lecciono, é bem exemplo dessa situação. A Literatura, que é uma Arte e não um mero tipo de texto, e associada a outras expressões artísticas nos ajuda a descobrir o mistério que somos, mistério que é também a palavra-chave em toda a ciência, é agora perversamente subestimada, tendo sido ultrapassada pelos textos dos MEDIA e pelos textos normativos. De referir ainda a estratégia da cruz e do verdadeiro e falso utilizada vergonhosamente na interpretação dos textos literários e nos próprios exames. É óbvio que isto só se consegue com a cumplicidade dos professores que aceitam obedientemente estas directrizes, não as questionando sequer.

Há uma frase sublime de Henri Thoreau que me acompanha e que nos aconselha a resistir e a desobedecer. Ei-la: «Resiste muito. Obedece pouco». Esta é uma das mensagens que desejo deixar-vos, a par do texto poético de Álvaro de Campos e da história de Demógenes e do seu prato de lentilhas.

Maria do Carmo Vieira

Abril 2007

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