quinta-feira, maio 25, 2006
terça-feira, maio 23, 2006
Terapia I
Gente humilde
Gente humilde
Garoto - Vinicius de Moraes - Chico Buarque/1969
Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar
segunda-feira, maio 22, 2006
Balanço do 1º. Dia de Luto Nacional

domingo, maio 21, 2006
Carta a meus filhos
Francisco Goya, Spainquinta-feira, maio 18, 2006
Fábula Muito Actual
A FORMIGA, O MARIMBONDO e OUTROS BICHOSPorquê o Luto Nacional? Porquê a Luta Nacional?
aí a minar tudo. Já ninguém sabe quem lançou a campanha se os de extrema direita, se os de extrema esquerda, se os extremamente na merda com isto tudo. Enquadro-me nos últimos e, a última coisa que me lembraria era de fazer desse luto uma bandeira partidária. Quantos mais reagirem a essas políticas que para aí andam a ser postas em prática pela direita "socialista" (com a crise das ideologias, chegámos a este paradoxo!) ou pela outras políticas na oposição reçaivadas de não serem elas a lá estar e a fazer essas mesmas políticas. Uma luta pelo poleiro, nítida. E tenho a certeza que estes dias de luto, se forem levados a sério, ou seja, se a disser a b, que disser a c, que disser a efg e h que se vão vestir de preto isto até pode ir para a frente e serve para mostrar que isto tudo nos cheira tudo muito mal. Se a proposta de um luto nacional, no meio da imanescente tesão nacionalista para incentivar o povo ao aturdimento do Mundial, for adiante, que seja para mostrar aos políticos que isto está mesmo uma choldra e que a malta está mesmo fartinha deles e de ver as Leis a não ser aplicadas com Justiça, nem sem Justiça: a não ver simplesmente as leis a serem aplicadas -- porque se fossem já muitos dos que vamos contestar neste luto estariam atrás das grades e o défict mais suportável de pagar. Pelo contrário, sabemos que eles estão por aí ocupando cargos, e que o desemprego é cada vez maior e cada investimento no desenvolvimento do nosso país é um tiro no pé e vão todos investir em Angola onde a mama é um oásis. O país é o que menos importa a essa gente. Entretanto o portuga já vai sendo avisado que nos próximos 50 anos estaremos a reboque de uma Europa a reboque numa globalização desenfreada que absorve e esgota os recursos mundiais e que nós no meio disso somos de somenos importância. Ninguém está realmente muito interessado em salvar o planeta e o país é o que menos importa a essa gente. As pessoas importam-lhes ainda menos. Querem apenas saber de números, se o seu objectivo é atingido doa a quem doer, se o seu lucro cresce e os nossos salários se desvalorizam cada dia que passa e quantos de nós mesmo assim vão depois votar neles. Esse desnível premeditado das políticas economicistas neo-liberais, da direita "socialista" e das direitas direitistas que estão numa oposição chocha e ressentida sem ter o contra que lutar das afinal para eles "boas" medidas do Governo. Esses podem de facto se aproveitar desta campanha e sair à rua de pantufas pretas. Será contra si próprios que vão de luto, convencidos que é contra os outros. Serão eles os enganados. Se não queres ser identificado com gente dessa, arranja uma ideia para te descartar desse possível naipe viciado. Se quem nesse dia sair à rua de preto disser na rua aos outros qual o motivo por que o faz, tudo se há-de esclarecer. Que me importa que haja infiltrados e aproveitadores que se vestirão de preto para gerar a confusão, se a grande massa forem os descontentes que tiram esses dias para dizer uns aos outros o que já dizem em família?
quarta-feira, maio 17, 2006
Citação da noite
Ora pro Nobis Vinícios
IICordis sinistra
— Ora pro nobis
Tabis dorsalis
— Ora pro nobis
Marasmus phthisis
— Ora pro nobis
Delirium tremens
— Ora pro nobis
Fluxus cruentum
— Ora pro nobis
Apoplexia parva
— Ora pro nobis
Lues venérea
— Ora pro nobis
Entesia tetanus
— Ora pro nobis
Saltus viti
— Ora pro nobis
Astralis sideratus
— Ora pro nobis
Morbus attonitus
— Ora pro nobis
Mama universalis
— Ora pro nobis
Cholera morbus
— Ora pro nobis
Vomitus cruentus
— Ora pro nobis
Empresma carditis
— Ora pro nobis
Fellis suffusio
— Ora pro nobis
Phallorrhoea virulenta
— Ora pro nobis
Gutta serena
— Ora pro nobis
Angina canina
— Ora pro nobis
Lepra leontina
— Ora pro nobis
Lupus vorax
— Ora pro nobis
Tônus trismus
— Ora pro nobis
Angina pectoria
— Ora pro nobis
Et libera nobis omnia Câncer
— Amém.
Vale a pena ler o poema completo Sob o Trópico do Câncer de Vinícios de Morais em Releituras
terça-feira, maio 16, 2006
Truque Tóxico -- Al Berto

isto é : drogo-me.........
abro a caixa de papelão, aparentemente cheia de sonhos
escolho um, fumo mais erva, nenhum sonho me serve,
abro a caixa dos pesadelos.....
o silencio ocupa-me e da caixa libertam-se corpos
cores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformes
cadeiras agressivas
limo as arestas fibrosas dos objectos
arrumo-os pelo quarto, de preferencia nos cantos
dou-lhes novos nomes, novas funções, suspiro extenuado
embora a sonolenta tarefa não tenha sido demorada
entro nela e fecho-a, o escuro solidifica-se na boca
tenho medo durante a noite
alguém se lembrou de atirar fora a caixa
..........luzes, umbigos obscurecidos pelas etiquetas
dos pequenos produtos de consumo, tóxicos

FRAGIL - MANTER ESTE LADO PARA CIMA
NÃO INCLINAR
TIME TO BUY ANOTHER PACKET
O quarto está completamente mobilado de corpos
explodem caixas, o sangue alastra
estampa-se nas paredes sujas de calendários e cromos
de pin-ups obscenas.
...fendas de bolor no espelho
o reflexo do corpo arde como uma decalcomania
TIME TO BUY ANOTHER PACKET
todos dormem dentro de caixas, uma serpente flutua
falamos baixinho
não se ouvem mais barulhos de cidade
o sono e o cansaço subiram-me á boca
....movemo-nos lentamente para fora de nossos corpos
e devastamos, devastamos.....
segunda-feira, maio 15, 2006
Lei de Lavoisier adaptada ao mundo moderno
Tautologias
O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.
Alberto Caeiro «O Guardador de Rebanhos»
Por causa do Ambiente
Tenho pensado muitas vezes que hoje em dia já não há ideologias por que lutar. Se alguém insiste em afirmar que ter uma ideologia é urgente e necessário no mundo actual, essa pessoa é logo considerada um sonhador (no mau sentido), uma pessoa desfasada da realidade, que não se enquadra nem se integra, que vive com a cabeça na lua. Estas impressões, aliadas ao facto de que esse tipo de gente normalmente não está bem colocada na vida, não tem um carácter prático, não se meteu num negócio rentável, não fez do lucro e do dinheiro os seus maiores objectivo, não tem perfil de oportunista e vive a trabalhar para poder viver, tudo isto faz com que essa pessoa seja considerada pouco ambiciosa e sem sentido da realidade. Nem quis o cartão de crédito que lhe ofereciam de mão beijada… Sofre apenas as consequências e já não é pouco. Mesmo que insista em acreditar numa causa, os outros não se juntam a ela, desacreditam-no, fazem-lhe ver que a realidade do dinheiro é mais forte que qualquer causa. Continua então apenas a desenrascar-se para continuar vivo, o que já lhe ocupa todo o tempo. Não acredita em governantes, nem em políticos, nem em economistas, nem nos jornais. Acredita apenas que ele, pelo menos, está vivo. Mas sabe que um mundo melhor seria possível se as coisas não fossem como são. Não encontra uma ideologia adequada em que acreditar. Segue para a frente, como o resto, mas infeliz.
Os sinais são cada vez mais visíveis. As nossas crianças – as que dispõem de informação – mostram hoje mais consciência dos problemas ambientais do que toda a comunidade científica deixa transparecer. Por que motivo a comunidade científica, que sabe dos factos, como relacioná-los, como prever o futuro a partir dos dados do presente, medir as consequências de cada desastre, por que motivo não vem publicamente avisar os governos do perigo de manter economias cujo plano é continuar a abusar dos recursos e a fugir para a frente na mira de maiores lucros. Os governos deviam estar a pagar à comunidade científica para fazer esses estudos e tomar as suas decisões só então e a partir deles. Gerindo os recursos racionalmente e não permitindo o mero saque lucrativo, os governos, caso permanecessem honestos uns e outros, contariam com a Lei e a Justiça para não permitir abusos. Toda a corrupção teria que ser evitada ou punida. Haveria certamente uma desaceleração em todo este processo em que nos vemos metidos.
Há muitos anos que tenho a convicção de que é preciso desacelerar, travar o processo, analisar os danos provocados e recomeçar, gerindo os recursos de modo diferente. Como se, chegados ao fim de uma era, tivéssemos que, ainda sobreviventes animais inteligentes que somos, fazer um balanço, reorganizar o mundo, reestruturá-lo, detectar-lhe os erros – e, como se disso dependesse o futuro da Humanidade, viéssemos por meio da nossa causa exigir aos governos mundiais que os nossos filhos e os seus netos, a nossa geração, tenham afinal direito a existir e a acreditar que o mundo se pode tornar num lugar melhor para os seus filhos, para os seus netos…
A Humanidade somos nós todos e os que hão-de continuá-la. Como saber do curso da destruição que o ser humano está a impor ao planeta e continuar neste ritmo de devastação, mediante hipócritas possibilidades de pagamentos de tributos para pagar a destruição causada – impagável! -- como acontece com o negócio de Kioto, tomado apenas como o melhor dos piores exemplos. Tudo se resume afinal a uma questão de preço, não de consciência. Como saber e permitir?
Todos, jovens e menos jovens deviam sair para as ruas a lutar por esta causa. O ambiente é a mais urgente causa pela qual todos devemos hoje lutar. Assistirmos ao processo para a extinção do planeta, por via da informação a que hoje temos acesso, que aponta para a sua aceleração, torna essa a mais urgente das causas a agarrar se acreditarmos que ainda é possível pelo menos tentar desacelerar o processo, se acreditarmos ainda na possibilidade do planeta ter futuro.
domingo, maio 14, 2006
Ontem e hoje... o país real

Procissão – António Lopes Ribeiro/João Villaret
Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.
Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!
Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!
Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.
sábado, maio 13, 2006
Não és a mesma visão
Não És Tu -- Almeida GarrettEra assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.
Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.
Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.
Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro de rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.
Mas não és tu… ai! não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.
sexta-feira, maio 12, 2006
Os Jogadores de Xadrez -- Ricardo Reis
Os Jogadores de Xadrez --Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao refletir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predileto
Dos grandes indif'rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida.
Os haveres tranqüilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
1-6-1916
quinta-feira, maio 11, 2006
Meu Sant'antoninho
Meu sant´antoninhoOnde te hei-de pôr
Deixa-me limpar o pó
Meu sant´antoninho
Dou-te o meu amor
Com chazinho e pão-de-ló
Deixa a vovó apertar o nó [bis]
Pra voar mais vale ter uma na mão
E um cheirinho a naftalina no salão
E a filha do juiz
Põe pozinho no nariz
E sapatos de verniz
Pra ir à comunhão
Meu sant´antoninho
Onde te hei-de pôr
Fica do lado de cá
Meu sant´antoninho
Meu senhor doutor
Assina-me um alvará
Com a caneta do teu papá [bis]
Foi a guerra que me deu a ilusão
De subir quando caí no alçapão
E a madrinha do polícia
Pisca o lho com malícia
Pra tentar canonizar
Os pretos do japão
Meu sant´antoninho
Onde te hei-de pôr
Para me lembrar de ti
Meu sant´antoninho
Dá-me o teu tambor
E um lencinho de organdi
E uma medalha para pôr aqui [bis]
Eu a pôr flores de papel no teu jarrão
E o comboio a apitar na estação
Já não o posso apanhar
Fico aqui a descansar
Meditando no mistério
Da incarnação
quarta-feira, maio 10, 2006
Pensamento da Noite
Da quinta raça, que morresse antes, ou vivesse depois!
Agora é a raça de ferro. Nem cessam, de dia,
De ter trabalhos e aflições, nem, de noite, de serem consumidos,
Pelos duros cuidados que lhes oferecem os deuses.
Mas no entanto algum bem será misturado aos seus males.
Zeus aniquilará também esta raça de homens dotados de voz.
Quando eles, ao nascer, tiverem as fontes grisalhas.
Então o pai não será igual aos filhos, nem estes a ele,
Nem o hóspede ao hospedeiro, o amigo ao amigo,
Não haverá amor entre irmãos, como era antigamente.
Aos pais, logo que envelheçam, eles os desonrarão.
Insultá-lo-ão com palavras duras,
Malvados, que nem conhecem o castigo divino!
E aos pais já idosos não oferecerão alimento.
Não mais terá valor um juramento, a justiça,
Ou o bem; honrarão antes o criminoso e o insolente.
A justiça será a violência, e a vergonha, não existirá.
O mau há-de prejudicar o que é melhor do que ele,
Atirando-lhe palavras tortuosas, e jurando sobre elas.
A inveja maledicente, que goza com o mal alheio, de sestro olhar,
Seguirá atrás de todos os miserandos humanos.
E então, abandonando os homens, ocultando o belo corpo
em brancos véus, sairão da terra de vastos caminhos,
para o Olimpo, para junto da raça dos imortais,
a Vergonha e a Justiça. O triste sofrimento aos mortais
será deixado. Contra o mal, não mais terão remédio.”
(Hesíodo, poeta grego (séc. VIII-VII a. C.): O Mito das Idades in Trabalhos e Dias)
Hesíodo. A Idade de Ferro. Que idade é a nossa?
Apesar do processo de “desvalorização”preconizado por Hesíodo na sucessão de eras do Mito das Idades (Ouro, Prata, Bronze, Ferro), parece ainda assim acreditar-se, como se a esperança fosse a última a morrer, na possibilidade do devir de outra idade melhor – “Da quinta raça, que morresse antes, ou vivesse depois!"
No entanto prossegue a imaginar e a descrever com será a idade futura, quando a Vergonha e a Justiça abandonarem definitivamente os mortais, pintando um quadro negro de decadência e a mais absoluta inversão das relações humanas, negando toda a possibilidade ao ser humano de se salvar.
E a nossa que idade é? Como lhe chamar?
terça-feira, maio 09, 2006
Querida Europa...
foi por ela que amanhã me vou embora
ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
sempre o mesmo em frente ao mar também me
cansa
diz Madrid Paris Bruxelas quem me alcança
em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela
foi por ela que eu já danço a valsa em pontas
que eu passei das minhas contas
foi por ela
foi por ela que me enfeito de agasalhos
em vez daquela manga curta colorida
se vais sair minha nação nos cabeçalhos
ainda a tiritar de frio acometida
mas o calor que era dantes também farta
e esvai-se o tropical sentido na lapela
foi por ela que eu vesti fato e gravata
que o sol até nem me faz falta
foi por ela
foi por ela que eu passo por coisas graves
e passei passando as passas dos algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano
e venho assim como um tritão subindo os rios
que dão forma como um deus ao rosto dela
foi por ela que eu deixei de ser quem era
sem saber o que me espera
foi por ela
foi por ela que amanhã me vou embora...
segunda-feira, maio 08, 2006
O Primeiro Economista que Oiço...
“A pobreza corresponde sempre a uma questão estrutural que se resolve alterando o funcionamento da economia e ajudando directamente os mais necessitados.”
“O problema agrava-se quando, para dar demasiadas regalias a uns, se tiram as de outros tantos, que é o que está a acontecer com as nossas negociações salariais.”
“O desemprego é outro seríssimo problema, pois embora tenhamos uma taxa baixa, comparativamente com outros países ricos, existem demasiadas desigualdades em termos de condições laborais: muitos trabalhadores são contratados, com todas as regalias, desde sólidos contratos, direitos à segurança social, subsídios de desemprego, etc., e outros nada têm. Trabalham a prazo, com recibos verdes e, numa altura de crise, tornam-se facilmente dispensáveis.”


Não conhecia o economista João César das Neves mas parece ser o primeiro economista vivo a quem eu oiço dizer alguma coisa que faz sentido. É o primeiro que admite ser necessário alterar o funcionamento da economia, única forma possível de combater a pobreza. O primeiro que admite que acabar com a pobreza passa pela ajuda directa aos mais necessitados.
É o primeiro que diz que se tira regalias a uns para dar a outros. Só não concordo com a proporção se tiram as de outros tantos, porque, na realidade, tiram-se regalias a muitos para dar regalias a muito poucos – os happy few ricos que acabam sempre se dando bem e para quem toda a crise á sinal de maiores lucros.
Espanta-me o optimismo recente dos nossos dirigentes: o Ministro das Finanças e o próprio Sócrates assumiram uma fachada de optimistas espantadores dos fantasmas das estatísticas que apontam o nosso país como o que terá o pior futuro dos países da UE nos anos mais próximos, e ambos sacodem a sombra negra do desemprego a aumentar descontroladamente, atingindo níveis nunca antes vistos. Quem serão os economistas que consultam? A Maya? Os nossos dirigentes, ao serviço das directivas comunitárias, parecem afinal negar os números resultantes dos estudos realizados pela própria UE… Nenhum desses dados é credível? O governo de Portugal não acredita que as estatísticas possam estar certas? Então por que insistir em pertencer a uma UE que se engana na nossa factura?
Ao contrário deles, João César das Neves considera o desemprego um seríssimo problema, embora me pareça que menospreza a nossa taxa de desemprego e insista em nos considerar um país rico (somos um país rico, senhor economista? Então qual é o problema? É só um problema de má distribuição da riqueza?)
Na verdade este também me parece um problema grave, mas talvez por outros motivos. A classe trabalhadora está hoje dividida, posta uma parte contra a outra – a dos trabalhadores seguros e a dos trabalhadores precários; há ainda a incluir os ex-trabalhadores, os desempregados, os excluídos. O sistema dividiu para reinar, ou seja: não são os trabalhadores (poucos) que têm uma situação privilegiada que vão sair para as ruas em defesa dos direitos dos outros (muitos) que têm poucas regalias. Passa a não haver uma classe trabalhadora coesa, unida pelos direitos do trabalho conquistados durante muitos anos e que vão sendo retirados mais ou menos subtil ou sorrateiramente. É por isso que não há luta reivindicativa e os sindicatos pendem para cá e para lá bandeados com o sistema.
João César das Neves é o primeiro economista que quase tem a coragem de desmascarar por inteiro a impotência deste sistema económico, quase apontando o erro que comete em fugir para a frente.
O nosso crédito enquanto país está a chegar ao fim, diz-nos a UE. Por este andar todos nos vão passar à frente. E nós vamos cantando e rindo, levados por dirigentes que não levam nada disto a sério porque fazem parte dos tais happy few a quem a bomba nunca estoira nas mãos (julgam eles!).
Pensamento da Noite
(Teixeira de Pascoaes, Aforismos)
domingo, maio 07, 2006
Mother
Mother (Waters)Mother do you think they'll drop the bomb?
Mother do you think they'll like this song?
Mother do you think they'll try to break my balls?
Mother should I build the wall?
Mother should I run for president?
Mother should I trust the government?
Mother will they put me in the firing line?
Mother am I really dying?
Hush now baby, baby, dont you cry.
Mother's gonna make all your nightmares come true.
Mother's gonna put all her fears into you.
Mother's gonna keep you right here under her wing.
She wont let you fly, but she might let you sing.
Mama will keep baby cozy and warm.
Ooooh baby ooooh baby oooooh baby,
Of course mama'll help to build the wall.
Mother do you think she's good enough -- to me?
Mother do you think she's dangerous -- to me?
Mother will she tear your little boy apart?
Mother will she break my heart?
Hush now baby, baby dont you cry.
Mama's gonna check out all your girlfriends for you.
Mama wont let anyone dirty get through.
Mama's gonna wait up until you get in.
Mama will always find out where you've been.
Mama's gonna keep baby healthy and clean.
Ooooh baby oooh baby oooh baby,
You'll always be baby to me.
Mother, did it need to be so high?
http://www.pink-floyd-lyrics.com/html/mother-wall-lyrics.html
sábado, maio 06, 2006
Excuse Me Mr.
Excuse Me Mr.Written by: Harper/Plunier
excuse me mr.
do you have the time
or are you so important
that it stands still for you
excuse me mr.
lend me your ear
or are you not only blind
but do you not hear
excuse me mr.
isn't that your oil in the sea
and the pollution in the air mr.
whose could that be
excuse me mr.
but i'm a mister too
and you're givin' mr. a bad name
mr. like you
so i'm taking the mr.
from out in front of your name
cause it's a mr. like you
that puts the rest of us to shame
it's a mr. like you
that puts the rest of us to shame
and i've seen enough to know
that i've seen too much
excuse me mr.
can't you see the children dying
you say that you can't help them
mr. you're not even trying
excuse me mr.
take a look around
mr. just look up
and you will see it's comin' down
excuse me mr.
but i'm a mister too
and you're givin' mr. a bad name
mr. like you
so i'm taking the mr.
from out in front of your name
cause it's a mr. like you
that puts the rest of us to shame
it's a mr. like you
that puts the rest of us to shame
and i've seen enough to know
that i've seen too much
so mr. when you're rattling
on heaven's gate
let me tell you mr.
by then it is too late
cause mr. when you get there
they don't ask how much you saved
all they'll want to know, mr.
is what you gave
excuse me mr.
but i'm a mister too
and you're givin' mr. a bad name
mr. like you
so i'm taking the mr.
from out in front of your name
cause it's a mr. like you
that puts the rest of us to shame
it's a mr. like you
that puts the rest of us to shame
Fidel Podre de Rico num Rico Mundo Podre
"Nuestro pueblo heroico ha luchado 44 años desde una pequeña isla del Caribe a pocas millas de la más poderosa potencia imperial que ha conocido la humanidad. Con ello ha escrito una página sin precedentes en la historia. Nunca el mundo vio tan desigual lucha." (Fidel Castro, discurso do 1º de Maio de 2003, em La Habana). Todavia, o regime de Fidel foi bem sucedido em uma diversidade de aspectos, por exemplo na construção de um sistema de saúde de boa qualidade, mesmo para o padrão dos países ricos, e na manutenção de uma cultura nacional rica e exótica, que de outra forma poderia ter sido enfraquecida. Em reconhecimento a seus esforços, Fidel Castro foi o primeiro chefe de Estado a receber a medalha da "Saúde para todos" da OMS, em 12 de abril de 1988.
En 2000, após meio século de castrismo, as taxas oficiais cubanas melhoraram tanto para a alfabetização (96%) como para a mortalidade infantil (0,9%). Segundo as estatísticas da UNESCO, a taxa de instrução de base em Cuba é uma das mais elevadas da América Latina. O PNB por habitante, no entanto, tornou-se medíocre e coloca Cuba entre os países pobres ou relativamente pobres, embora alguns estudos apontem para o início de uma lenta recuperação económica do país.
O seu regime é considerado, actualmente, um dos últimos redutos de inspiração comunista no mundo, embora alguns analistas políticos prevejam e observem já uma maior abertura do país ao exterior.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Fidel_Castro)
Uma vez estive em Cuba, como quem entra numa máquina do tempo transportado aos anos 70. A arquitectura levou-me mais atrás, aos tempos coloniais, pela imagem da sua ruína. Em Cuba há uma inexplicável felicidade no ar. Senti logo que havia mais alegria naquela visível falta de recursos que em toda a suposta felicidade que eu podia experimentar de estar ali na condição de turista com hotel, transporte e dólares. Mesmo o desejo de ter ali não é rancoroso. Se se conseguir umas calças de ganga americanas, um perfume francês, uma pastilha elástica, melhor ainda. Belas mulheres morenas acompanhantes por uma noite de tísicos alemães branquelas, por um bom jantar, pelo convite à dança de uma música que nem os modos desençongados e descoordenados dos alemães conseguem tirar do ritmo. De fora eu sentia mais tristeza por elas do que elas que mesmo assim se divertiam. Na falta de transportes públicos ou preferindo tudo a entrar nos velhos autocarros atascados de gente suada daquele clima pesado de humidade insular, dava-se e apanhava-se boleia de bicicleta, caminhava-se a pé pelo ar morno, difícil de respirar. As cores quentes tornavam o azul do céu numa cor quente. Os mujitos davam um alívio temporário e a seguir provocavam novas ondas de calor . Bons serviços de saúde. Gente civilizada, humana, informada, fluente. "Taxistas" nos seus desgastados carros particulares fazendo biscates mais rentáveis em dólares do que o seu salário de ex-professores universitários. Um povo a viver de expedientes para aceder aos dólares, o dinheiro que vale e que tudo compra. Candonga. Muita candonga. Um povo a fazer pela vida. Um povo que reconhece que lhe falta muita coisa mas com a consciência que têm acesso ao mais importante. Saúde. Educação. Orgulho na resistência ao capitalismo. Um povo que sabe o que custa a independência, que sofre o embargo aprendendo a ser feliz com o muito pouco que o estado lhe oferece e que as nossas democracias neo-liberalistas dizem não ter dinheiro para pagar: saúde, educação, investigação, cultura. Gostariam de poder andar com roupas de marca. Gostariam de poder ir ver com os seus próprios olhos como é o mundo fora da ilha. E no entanto, sem isso, são felizes. Vê-se que são felizes daquele sol e daquela bandeira que acenam de não pertencer mais ao imperialismo americano. Vê-se que se orgulham de ser cubanos, o que nos há-de soar muito estanho, a nós portugueses.
Em Cuba há quem tenha bons carros, quem ande na última moda, quem não tenha que esperar pelas senhas mensais na fila da cantina estatal. São os filhos do poder. E afinal Fidel é rico. Podre de rico. Uma espécie de comunista rico inadmissível para o mundo ocidental “desenvolvido”. Dinheiro. Muito dinheiro. Será essa a fórmula que encontrou para ser respeitado no mundo e para ser intocável até mesmo pelos podres poderes do imperialismo americano? Será Fidel uma espécie de banqueiro anarquista pessoano? Terá ele aprendido a viver de expedientes para se impôr num mundo onde o poder do dinheiro impera?
sexta-feira, maio 05, 2006
"Ah, sempre no curso leve do tempo pesado"
Ah, sempre no curso leve do tempo pesadoA mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de star enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, sperança – muda o nome, fica
Só a alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre – seja
Diverso – o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
Fernando Pessoa
quinta-feira, maio 04, 2006
Pensamento da Noite
Poema para Galileu
Poema para GalileuEstou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
António Gedeão
"E no entanto, move-se" (Galileu)
Dedicado a todos aqueles que no dia quarta-feira, maio 03, 2006
O sol ensina o único caminho
Tentativas para um Regresso à Terra Al Berto
O sol ensina o único caminho
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras
falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis
hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície
caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos
terça-feira, maio 02, 2006
Ventos de Mudança
Pensamento da Noite
Se o jogo está viciado, mudem-se as regras!
Exército ocupa campos de petróleo e gás na Bolívia da Folha Online
da France Presse, em La Paz, 1º. de Maio de 2006
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A partir de hoje, elas ficam obrigadas a entregar as propriedades para a empresa estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), que assumirá a comercialização da produção, definindo condições, volumes e preços tanto para o mercado interno quanto para exportação.
Da profissão do poeta -- Geir Campos

Da profissão do poeta
Geir Campos
A Paulo Mendes Campos
Da
IdentificaçãoProfissional
Operário do canto, me apresentos
em marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.
Do Contrato
de Trabalho
Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio do meu canto.
Embora a dor ilhada ou coletiva
me doa, antes celebro as coisas belas
que movem o sol e as demais estrelas
— antigos temas que parecem novos
de tão gratos ao meu e aos outros povos.
Da Relação
com Vários
Ofícios
Meu verso tine como prata boa
pesando na confiança dos bancários;
os empregados no comércio bem
sabem como atender aos que encomendo
e recomendo mais do que ninguém;
aos que funcionam em telefonia
com ou sem fio, rádio, a esses também
sei dizer à distância ou de mais perto
a cifra e o texto no minuto certo;
para os músicos profissionais,
sem castigar o timbre das palavras
modulo frases quase musicais;
para os operadores de cinema
meu verso é filme bom que a luz não queima;
trilho também as estradas de ferro
e chego ao coração dos ferroviários
como um trem sempre exato nos horários;
às equipagens das embarcações
de mares ou de lagos ou de rios
meu verso fala doce e grave como
doce e grave é a taboca dos navios;
nos frigoríficos derrete o gelo
da apatia, se é para derretê-lo,
meu canto a circular nas serpentinas;
à boca da escotilha ou nas esquinas
do cais, o meu recado é força viva
guindando a atenção dos homens da estiva;
desço cantando aos subsolos e às minas
onde outros operários desenterram
o minério de suas artérias finas;
a outros, que dão sua têmpera aos metais,
meu canto ajuda feito um sopro a mais
aflando o fogo em flâmulas vermelhas;
aos colegas que lidam nos jornais
boas noticias dou e, mais do que isso,
jeito de as repetir e divulgar
quando o patrão quisera ser omisso;
à gente miúda, pronta a ser maior,
passo lições de um magistério puro
e o que é dever escrevo a giz no muro;
para os químicos sei fórmulas novas
que os mártires elaboram nas covas...
e a todos que trabalham vai assim
meu canto sugerindo meio e fim.
Do Horário
do Trabalho
Marcadas as minhas horas de ofício,
de dia em sombras pelo chão e à noite
no rútilo diagrama das estrelas,
só quem ama o trabalho sabe vê-las.
Dos Períodos
de Descanso
Seja domingo ou dia de semana,
mais do que as horas neutras do repouso
confortam-me os encargos rotineiros;
meu descanso é confiar nos companheiros.
Do Direito
a Férias
Nunca me participam por escrito
ou verbalmente os ócios que mereço,
mas sempre gozo bem o merecido:
pois o ócio não é ofício pelo avesso?
É quando fio o verso; depois teço.
Da Remuneração
das Férias
Em férias tenho a paga de saber
lembrado o verso meu por quem o inspira;
é como se outra mão tangesse a lira
Do Salário
Mínimo
Laborando entro os pontos cardinais,
de norte a sul, de leste a oeste, vou
cobrando aqui e ali quanto me basta:
o privilégio de seguir cantando.
(Imposto é cuidar onde e como e quando.)
Do Expediente
Noturno
Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
sem se tornar com isso menos pura
a voz sobe uma oitava na mistura.
Da Segurança
do Trabalho
Mesmo no escuro, canto. Ao vento e à chuva,
canto. Perigo à vista, canto sempre;
e é clara luz e um ar nunca viciado
e sol no inverno e fresca no verão,
meu canto, e sabe a flores se é de flores
e a frutos se é de frutos a estação.
Só não me esforço à luz artificial
com que a má fé de alguns aos mais deslumbra
servindo-lhes por luz o que é penumbra;
também quando o ar parece rarefeito
a lira engasga, o verso perde o jeito.
Da Higiene
do Trabalho
Não canto onde não seja o sonho livre,
onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito.
Para enganar o tempo ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto...
Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança.
Da Alteração
de Contrato
Etc.
Meu ofício é cantando revelar
a palavra que serve aos companheiros;
mas se preciso for calar o canto
e em fainas diferentes me aplicar
unindo a outros meu braço prevenido,
mais serviço que houver será servido.
segunda-feira, maio 01, 2006
1º. de Maio -- Dia do Trabalhador

Que força é essa
Letra e música: Sérgio Godinho
In: "Sobreviventes"; 1971
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 3]
Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes
(Que força...)
(Vi-te a trabalhar...)
Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 10]
































