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domingo, julho 05, 2009

Outros tempos de resistência



«German song dating back to WWII in defense of the Soviet Union which was at the time suffering from Hitler's Nazi invasion. The song encourages workers to unite and take up arms against the imperial powers of the time (England, France, the USA, Germany, and Japan) that had decided, based on their world ambitions for poor counties' and colonies' raw materials and influence, to start a war that would kill 45 million people, all of them soldiers recruited from working class families either from laborer or peasant parents. Cancion de cantante aleman de la segunda guerra mundial, en la cual se enfatiza que la lucha de las masas trabajadoras por el socialismo debe de enfrentarse sin cuartel a las fuerzas fascistas y capitalistas del mundo. Viva el pueblo trabajador escribiendo con su sangre ellos mismo, y para siempre, su propia historia!» (vladimirilyichlenin)


[Canção alemã que data da II Guerra Mundial em defesa da União Soviética, a qual estava nesse momento a sofrer a invasão nazi de Hitler. A canção encoraja os trabalhadores a unirem-se e a tomar armas contra os poderes imperialistas da altura (Inglaterra, França, os EUA, a Alemanha e o Japão) que decidiram, orientados pela sua ambição global pelas matérias primas e influência dos países pobres e colonizados, dar começo a uma guerra que matou 45 milhões de pessoas, todos eles soldados recrutados na classe trabalhadora ou camponesa. Canção em alemão da segunda guerra mundial, na qual se enfatiza que a luta das massas trabalhadoras pelo socialismo deve enfrentar sem quartel as forças fascistas e capitalistas mundiais. Viva o povo trabalhador escrevendo com o seu sangue a si próprios, e para sempre, a sua própria história.]

sábado, março 14, 2009

José Mário Branco (de novo)


Do Jornal Online

PASSA A PALAVRA

A revolução por dentro das palavras (de novo)

A acção (o que fazemos, como o fazemos) pode transformar a realidade. O pensamento permite-nos compreender a realidade e traçar caminhos para intervir nela. E o discurso (as palavras que usamos para comunicar com os outros) é o resultado dessas duas coisas: acção e pensamento.

Por José Mário Branco

Para tentar compreender a realidade concreta, o pensamento é obrigado a deslocar-se para o campo dos conceitos abstractos; de u

ma soma de factos particulares, tentamos extrair regras e relações gerais. Mas esta relação da abstracção com a realidade não é directa nem automática; não é garantia de rigor e, muito menos, de compreensão por parte dos outros. Neste processo podemos separar-nos facilmente da realidade se não formos aferindo o pensamento pelos factos objectivos que são o seu ponto de partida. Essa aferição tem de ser feita por outros meios, que não o pensamento abstracto - meios práticos (a nossa actuação), meios discursivos (a comunicação que é validada pelos seus dois lados, emissor e receptor) e meios éticos (que aferem o que dizemos pelo que fazemos, num sistema de valores). A importância do segundo destes aspectos, a comunicação, é muito fácil de identificar, pela negativa, na experiência dos grupos revolucionários em Portugal. Com ele se re

laciona a tendência para se pensar que toda a realidade corresponde à ideia que dela se faz, e concluir que basta enunciar regras gerais, palavras de ordem, meras construções mentais, para transmitir aos outros a sua pertinência e a sua justeza. É uma tendência de contornos esquizóides, na medida em que favorece a criação de pequenos mundos fechados e sectários. Quantas vezes nos acontece partilhar as mesmas ideias com outras pessoas e, no entanto, não haver entendimento entre nós, porque as palavras que usamos para definir essas ideias se tornam um obstáculo?

Uma vez, em 1975, durante o processo revolucionário a que os brasileiros chamam Revolução dos Cravos, um amigo meu, revolucionário comunista, foi desenvolver e organizar a luta política em Trás-os-Montes (interior nordeste de Portugal) onde, pensava-se, as pessoas estavam muito dominadas pelas ideias reaccionárias dos padres e dos caciques ex-fascistas. Foi para a região e, numa tasca de aldeia, pôs-se à conversa com trabalhadores do campo que ali estavam a beber e a conviver. Foi conversando sobre a vida “em geral” e lentamente, à medida que iam estando de acordo sobre as ideias simples (democracia, liberdade, justiça social para acabar com diferenças entre pobres e ricos), ele ia explicando “os nomes dos bois”: isto é o socialismo, aquilo é o comunismo, aqueloutro é a revolução, etc. No fim da conversa, um velhote virou-se para ele, e disse: “Essas coisas que nos explica são importantes; eu concordo com elas, concordo que a nossa sociedade devia ser assim… Mas há uma coisa que não entendo… Porque é que, a coisas tão bonitas, você dá nomes tão feios?” Para ele, os “nomes feios” eram as palavras “socialismo”, “comunism

o”, “revolução”. O que os separava não eram as ideias, as convicções, as aspirações para a sociedade, mas sim os nomes dados a essas coisas.

As palavras acima referidas, que para mim, correspondem ao interesse profundo das classes proletárias, foram (e continuam a ser) muito deturpadas pela propaganda dos senhores do sistema, que não querem que haja essas mudanças na sociedade, e também pelos erros e os crimes cometidos em nome dessas ideias.

A luta contra a propaganda do sistema é inevitável, faz parte da luta de classes. A propaganda do sistema só se pode combater com um contínuo trabalho de esclarecimento e educação política: libertar o espírito crítico das pessoas, encontrando palavras comuns para as ideias comuns. Mas esta contrapropaganda revolucionária de nada valerá se se limitar a uma luta de palavras contra palavras. Ela só ganha sentido na criação de factos objectivos - acção política - que façam a ponte entre a abstracção e a concretude, entre a subjectividade e a objectividade, entre o modelo e a prática.

O episódio do meu amigo em Trás-os-Montes mostra que não basta explicar as coisas verbalmente: os nossos interlocutores estão sempre, quer queiramos quer não, a relacionar qualquer disc

urso com a realidade factual da vida. Se cada um de nós não o fizer também, em vez de uma abstracção capaz de criar ideias novas mobilizadoras, caímos no enunciado vazio de “cartilhas” ideológicas extraídas e afirmadas a partir de uma aplicação mecânica dos dados da história política e da experiência própria. Isso nada tem a ver com a ferramenta crítica que Marx nos legou para nos ajudar a compreender a sociedade e a intervir na sua transformação.

Temos de ser capazes de provar aos outros, na prática, que os nossos actos e os nossos métodos de actuação estão de acordo com os grandes princípios que defendemos. Temos de mostrar que existe, desde já, nos nossos actos concretos, a capacidade de realizar - agora - algo que enunciamos como projecto. Isso depende dos métodos que utilizamos na acção. Os meus actos políticos não consistem na t

ransformação que proponho (p.ex. a revolução socialista). Os meus actos políticos são a forma de relacionamento e o processo de luta que utilizo: eles é que constituem, no presente e em si mesmos, o modelo social que preconizo no meu projecto revolucionário.

E aqui intervêm, também, o que chamo “meios éticos”, que enquadram a nossa acção num sistema de valores. Os activistas da revolução não conseguirão resultados palpáveis se não forem fazendo, na sua vida pessoal, aquela revolução a que aspiram para todos. Porque as palavras não são mais do que uma representação do mundo, material ou subjectivo. A acção (o que fazemos, como o fazemos) é que pode realmente transformar a realidade. O pensamento permite-nos compreender (tentar compreender) a realidade e traçar caminhos para intervir nela. E o discurso, sendo essencial para comunicar com os outros, é o resultado dessas duas coisas: acção e pensamento.

A luta pela democracia tem de ser uma escola de democracia; a luta pelo socialismo tem de ser uma escola de socialismo; a luta pelo comunismo tem de ser uma escola de comunismo; e a luta pela transformação revolucionária da sociedade tem de ser, em si mesma, uma transformação de cada um dos indivíduos que a desejam, uma espécie de antecipação dessa sociedade nova por que lutamos, até que este processo consiga atingir uma massa crítica de indivíduos capazes de tomarem nas suas mãos essa transformação. Tal não será possível enquanto houver, em nós, contradições entre estes três aspectos – acção, pensamento e discurso – porque as pessoas, com toda a razão, desconfiarão das nossas palavras e não se juntarão a nós.

Mas há ainda outro aspecto curioso suscitado pelo debate que provocam estas e outras temáticas: de que serve debater ideias se as ideias debatidas não forem postas à prova por quem debate? Tanta história, tantos livros, tantos jornais e revistas, tantas discussões - a grande acumulação das ideias sobre a experiência -, de que podem valer se não forem, todas e cada uma delas, confirmadas ou infirmadas numa prática presente? Muitas vezes, o debate de ideias, condição indispensável da mudança, é feito de tal modo que não passa de uma fuga à acção política, o que é conseguido através da falácia de considerar que esse debate é, em si mesmo, acção política. Seja por academismo, seja por que se tiram de vez em quando umas horas para “debater”, este tipo de debate ocorre sem qualquer confronto dialéctico com a prática, com a acção, com a luta de classes.

Um revolucionário devia abster-se de defender ou atacar uma ideia sem produzir argumentos alicerçados na sua acção prática.

Imagem em destaque tirada pelo fotógrafo Luís Pavão.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Desejos de mudança andam pelos mails

Aragem do Sul




É necessária uma ruptura com a política de direita, é possível uma vida melhor.
Gritemos Bem Alto e Lutemos, para mudarmos de Rumo!

Hoje recebi este mail. Não sei ao certo que ventos do Sul o trazem, mas gostei de saber que existe mais gente a pensar o mesmo que eu. É preciso mudar de rumo. Quanto mais vierem gritar que a crise mundial é realmente grande e grave, mais devemos responder que se ela é assim foi o sistema capitalista que a gerou. Ela é a prova comprovada da sua falência. Decretemos a falência do sistema capitalista. É preciso recusar que se continue a alimentar a besta moribunda em que se converteu.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Cheira-me a Revolução!

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De tempos a tempos a Kaótica deixa O Pafuncio entregue à sua sorte e muda-se para o Cheira-me a Revolução! um blogue colectivo recém-criado por um grupo que por uma feliz circunstância se encontrou no II Encontro de Blogues da Festa do Avante. O blogue é a prova viva de que apesar das maiores ou menores divergências político-partidárias, é possível unirmo-nos num projecto comum e pô-lo em acção.

Hoje foi o meu dia de estreia. Por isso vos convido a visitar o blogue, a lê-lo (dando também alguma atenção aos comentários que por lá se encontram), a deixar os vossos próprios comentários e a divulgar o blogue.

E se tiverem alguma ideia que possa abrir portas à Revolução, não hesitem em partilhá-la com este grupo. A nós cheira-nos a revolução e a vocês?

(Leia aqui o post A Revolução é para Ontem!)

domingo, julho 20, 2008

TPC de Férias


Henry David Thoreau, A Desobediência Civil (Civil Disobedience, 1849), Antígona, 1987, p.64


“Quando o súbdito nega obediência
e quando o funcionário
se recusa a aplicar as leis injustas
ou simplesmente se demite,
está consumada a Revolução”

Homem do Quilate de Henry David Thoreau ( 1817 – 1862 )

«A desobediência civil já trouxe relevantes resultados há tempos atrás.
Para citar os mais óbvios ficaria com Mahatma Gandhi e Luther King.

Todos os atos políticos de Gandhi foram baseados em princípios de desobediência civil e não- violência. Gandhi teve acesso às ideias de desobediência civil através Leon Tolstoi um cristão libertário que por sua vez bebeu na fonte daquele que foi provavelmente o pai da "desobediência civil", David Thoreau.

Thoreau morava em uma cabana numa floresta de Massachusetts nos EUA, e certo dia encontrou um guarda que lhe cobrou impostos e inclusive ofereceu dinheiro emprestado para que o imposto fosse pago. Thoreau ficou desconcertado com a situação pois já morava há dois anos na cabana e só estava indo para a cidade para consertar o sapato. E recusou-se a pagar o imposto pois, por princípio, recusava-se a dar dinheiro para o Estado uma vez que discordava da política deste e também não queria ajudar a financiar a guerra que era travada contra o México.

Ficou uma noite preso até ter a fiança - e os impostos - pagos por sua tia. Quando saiu da prisão escreveu o texto "A relação do indivíduo com o Estado", que mais tarde foi publicado como "Resistência ao Governo Civil", para finalmente ser conhecido como "Desobediência Civil" .» (urgente ler o texto de Thoreau)

Retirado daqui

e daqui

sábado, maio 03, 2008

Maio de 68: a ressaca dos 40

Grande jantarada a de ontem, meus amigos. A ressaca foi fatal. Acordei de mal com o mundo, com um mau humor do capeta, como diz uma amiga brasileira. Quando se passa uma noite na chalaça, depois já se sabe que vem o reverso. Claro que as ressacas são saudáveis, provocam uma consciência da realidade mais aguda, como o Fernando Pessoa dizia, merda, estou lúcida! E a lucidez em dia de ressaca é uma coisa terrível porque não poupa nada nem ninguém.
Vejam lá que acordei a ouvir no rádio uns senhores a falarem do Maio de 68. No meio de muitas baboseiras que para ali disseram, fui esperando que pelo menos um deles aflorasse a questão do Maio de 68 ter sido uma reacção colectiva dos jovens universitários franceses contra o consumo e contra as malhas do sistema capitalista. Mas não, quem se presta agora a reescrever a História, prefere lembrá-lo como um movimento dos miúdos maus das famílias boas de onde sairam pessoas que hoje em dia estão no poder (e até no governo Sarkosy), como se de todas as gerações não saissem sempre pelo menos uma boa meia dúzia de filhos da puta traidores das causas que antes perfilhavam. A tendência (e a preferência) é esquecer os outros, a massa, e lembrar estes.
Dei mais uma volta na cama, sem sentir o peso de estar a ser responsável por uma família destruturada: as crias tinham ficado entregues em boas mãos, desta vez não esperavam o pequeno-almoço à hora do almoço, como acontece às vezes ao fim de semana. Confesso que mesmo assim não foi fácil reagir, talvez até desta vez tenha sido mais difícil. As ressacas vão sendo cada vez mais severas, como a lucidez resultante delas.
Durante o dia giboiei pelos sítios, sem pachorra para nada. Não me apetecia sol, nem ar livre, nem comida. Só uns tragos na Boémia me souberam bem. Voltei para casa ansiosa por me estender na cama. Li uns artigos sobre... o Maio de 68. A mesma sensação voltou: dizia um dos artigos que a miúda de uma fotografia que simbolizou a presença das mulheres no Maio de 68, encavalitada aos ombros de um colega, de bandeira em punho, no meio da multidão, afinal doiam-lhe os pés e estava ali porque lhe disseram: se me pegares na bandeira, deixo-te trepar para os costados e carrego contigo nesta confusão. O jornalismo cospe no próprio prato onde come e vem advertir-nos para o perigo das imagens poderem ser enganosas: a partir de agora qualquer imagem não passa de uma falácia tão grande quanto a sua máxima "uma imagem vale por mil palavras". Eu diria antes: uma revolução vale por mil imagens. Afinal aquilo do Maio de 68 foi uma grande banhada... e nós que andámos a vida toda à espera que os jovens estudantes voltassem à carga, assumindo um dia destes uma posição consciente em relação ao sistema económico e político! Porque os períodos de revolta são cíclicos e as contestações dos jovens de 68 ainda não se cumpriram, tendo-se ao contrário tornado mais urgentes. O meu pai costumava dizer que se não se é revolucionário aos vinte anos, nunca mais se é revolucionário. O que estes artigos nos vêm dizer é que aquilo era tudo meninos filhos de gente bem, a estudar na Sorbonne com o dinheiro dos papás e que assim que herdaram o império, deitaram mãos à obra deixando as convicções de parte. Não duvido que em alguns casos isso tenha acontecido, mas foi só isso que aconteceu? As revoluções são momentos de ruptura, gritos de revolta contra o sistema instituído. Irrompem para afirmar o seu não absoluto a uma realidade que não aceitam, com a qual não querem pactuar.
Evidentemente não vivi o Maio de 68, mas assisti a uma revolução em que, logo a partir do primeiro momento em que aconteceu, as massas sairam para a rua gritando o seu descontentamento com o que tinham antes e atirando cravos a tudo o que lhes acenasse com a liberdade desejada. Correu mal? Enquanto durou, correu bem, mas durou pouco. Vieram depois os políticos tomar conta da revolução, instituí-la, e ela acabou, fim do processo revolucionário. Chegámos ao ponto a que chegámos, é verdade, uma escória apoderou-se do sistema, alguns até foram maoistas! São os tais oportunistas sedentos de poder que tanto empunham uma bandeira como vendem a alma ao diabo. Mas isso nunca lhe há-de tirar o mérito que teve: quem assistiu, quem hoje vê as imagens, pode ver as marcas de uma enorme felicidade nos rostos e a expressão da enorme solidariedade que então se estabeleceu: parecia que naquele momento todas as utopias se podiam concretizar. Depois veio o Soares, o mon ami Miterand , os fundos da CEE, a destruição de todos os recursos em troca de dinheiro fácil. Lançaram o engodo e acenaram-nos com promessas de melhoria de condições de vida. Depois de nos lançarem a corda foi só puxar o laço. E daí em diante foi de mal a pior, até ao descalabro em que nos encontramos. Aconteceu cá e aconteceu um pouco por todo o mundo, com todas as revoluções.
Se hoje o povo está novamente carrancudo e infeliz é porque nada daquilo se cumpriu. Se o jornalismo se presta a deturpar a História é porque sabe que a memória é curta e manipulável. Se em França está um Sarkozy no poder e por todo o mundo os líderes são seres repelentes e corruptos é porque o Maio de 68 não se cumpriu. Vivemos atolados no mesmo sistema capitalista anterior a todas as revoluções, apenas mais refinado que, como um pântano, nos suga e nos oprime.
Como ontem cantava o Zeca a revolução é para já. Reafirmo e acrescento: a revolução é para sempre!




sexta-feira, abril 25, 2008

Frases inspiradoras

Uma utopia é uma possibilidade que pode efectivar-se no momento em que forem removidas as circunstâncias provisórias que obstam à sua realização.
(Robert Musil)

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

A Malta das Cantigas

Sessão de canto livre, Coliseu dos Recreios, 1974

«Eu sei que não é fácil falar de tudo isto a esta distância, porque passou muito tempo e vocês nem sequer tinham nascido quando a parte mais empolgante desta história aconteceu. Ainda assim, eu tentei, por achar que valia a pena e por entender que, para além da qualidade mais ou menos discutível do que fizemos e cantámos, havia os valores que nos uniam e mobilizavam e que são universais e intemporais. Era um tempo em que as pessoas não valiam por aquilo que tinham e sim por aquilo que eram e pensavam, era um tempo em que não se era avaliado pelos sinais exteriores de riqueza e de poder e sim pela força dos ideais por que cada um se batia. Havia causas e sonhos, havia princípios e afectos. E eu achei que, mesmo tendo passado já tanto tempo, devia contar-vos ou recontar-vos esta história, num tempo fugaz e competitivo em que a memória parece valer cada vez menos, empobrecendo-nos assim a cidadania e a própria democracia. Talvez vocês encontrem alguém que queira ouvir esta história, de preferência ao som da música desse tempo e das vozes que lhe deram vitalidade e alegria. Zeca Afonso e a malta das cantigas talvez mereçam essa atenção e esse interesse, já que, num tempo ainda não globalizado, ajudaram, à sua maneira, a História a acontecer, com a confiança partilhada e generosa de quem canta de olhos postos num tempo melhor.»

Assim termina este pequeno livro de José Jorge Letria, Zeca Afonso e a Malta das Cantigas, da Terramar (2004), escrito em 2002. Embora tenha apenas 70 e poucas páginas e se leia rapidamente, ele é um "testemunho vivo de um tempo em que Portugal e os Portugueses viviam privados das liberdades fundamentais". José Jorge Letria não só viveu nesse tempo como foi um dos da "malta das cantigas". Aconselho vivamente a sua leitura e a sua divulgação junto das novas gerações, nas escolas e aos nossos filhos pois bem precisados estão de ouvir estas experiências que temos a responsabilidade de lhes transmitir.

quinta-feira, abril 26, 2007

Liberdade, liberdade quem a tem chama-lhe sua...

Posted by Picasa25 de Abril de 2007

Um cravo viçoso deixado por uma amiga de sempre

Assinalou o dia na minha lapela

Adormeci com o rádio ligado e amanheci

Com um presidente murcho à cabeceira

Que dizia que a juventude comanda

Sacudi aquela velha conversa em família

E saí para a rua para ver com os meus olhos

Que a revolução de Abril é uma velha senhora

Que todos os anos rejuvenesce nesta data

Porque espera serena que os seus ideais

Ganhem força a cada nova Primavera

Muito a juventude dos velhos tem para contar

À senilidade dos que nasceram tarde demais

Para saber por si próprios como a Liberdade

Teve que ser conquistada por um povo unido

Que desde esse dia longínquo nunca mais a quis perder



sábado, abril 14, 2007

Brecht, Brecht e mais Brecht!!!


Inscrição Mural do Maio de 68

I - O Analfabeto Político - Bertold Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe,

da farinha, da renda de casa, dos sapatos, dos remédios,
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e
enche o peito de ar dizendo que odeia a política.
Não sabe, o idiota,
que da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos
que é o político vigarista, aldrabão,
o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

(Bertolt Brecht)

II - Elogio da Dialéctica (Berthold Brecht)

A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".

III - 'Os que lutam', de Berthold Brecht (1898 - 1956), dramaturgo e poeta alemão

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.




sexta-feira, março 16, 2007

Frase da madrugada

Disobedience, in the eyes of anyone who has read history, is man's original virtue. It is through disobedience and rebellion that progress has been made. - Oscar Wilde
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