segunda-feira, maio 15, 2006

Por causa do Ambiente


Tenho uma filha com 9 anos que me disse um dia destes que cada vez tem mais medo do mar. Perguntei-lhe porquê e ela falou-me de um pesadelo que teve com ondas enormes e o oceano invadindo a terra. O sonho teve várias repetições da mesma cena ou foi um sonho recorrente, não cheguei a perceber bem. Umas vezes acabou pior que outras. Entretanto hoje enquanto estudava Estudo do Meio, ela mostrou-se preocupada com o buraco do Ozono, com a possibilidade dos glaciares derreterem e, claro lá voltaram as perguntas ansiosas se isso podia fazer com que o mar invadisse a terra e todos morrêssemos.
Tenho pensado muitas vezes que hoje em dia já não há ideologias por que lutar. Se alguém insiste em afirmar que ter uma ideologia é urgente e necessário no mundo actual, essa pessoa é logo considerada um sonhador (no mau sentido), uma pessoa desfasada da realidade, que não se enquadra nem se integra, que vive com a cabeça na lua. Estas impressões, aliadas ao facto de que esse tipo de gente normalmente não está bem colocada na vida, não tem um carácter prático, não se meteu num negócio rentável, não fez do lucro e do dinheiro os seus maiores objectivo, não tem perfil de oportunista e vive a trabalhar para poder viver, tudo isto faz com que essa pessoa seja considerada pouco ambiciosa e sem sentido da realidade. Nem quis o cartão de crédito que lhe ofereciam de mão beijada… Sofre apenas as consequências e já não é pouco. Mesmo que insista em acreditar numa causa, os outros não se juntam a ela, desacreditam-no, fazem-lhe ver que a realidade do dinheiro é mais forte que qualquer causa. Continua então apenas a desenrascar-se para continuar vivo, o que já lhe ocupa todo o tempo. Não acredita em governantes, nem em políticos, nem em economistas, nem nos jornais. Acredita apenas que ele, pelo menos, está vivo. Mas sabe que um mundo melhor seria possível se as coisas não fossem como são. Não encontra uma ideologia adequada em que acreditar. Segue para a frente, como o resto, mas infeliz.
Muito bem mas -- e a questão ambiental? Não deveria ser esta a grande causa para contrapor à crise em que as ideologias se encontram? Não deveria ser este o grande motivo, a grande motivação pela qual a Humanidade se devia bater contra os poderes estabelecidos. Estaremos realmente a ver os sinais? Todos os que conscientemente assistem e, pior, contribuem para que o futuro do planeta seja cada vez menos possível estarão a ser eles os realistas vendo que caminham para o precipício e dando sempre mais um passo na sua direcção?
Os sinais são cada vez mais visíveis. As nossas crianças – as que dispõem de informação – mostram hoje mais consciência dos problemas ambientais do que toda a comunidade científica deixa transparecer. Por que motivo a comunidade científica, que sabe dos factos, como relacioná-los, como prever o futuro a partir dos dados do presente, medir as consequências de cada desastre, por que motivo não vem publicamente avisar os governos do perigo de manter economias cujo plano é continuar a abusar dos recursos e a fugir para a frente na mira de maiores lucros. Os governos deviam estar a pagar à comunidade científica para fazer esses estudos e tomar as suas decisões só então e a partir deles. Gerindo os recursos racionalmente e não permitindo o mero saque lucrativo, os governos, caso permanecessem honestos uns e outros, contariam com a Lei e a Justiça para não permitir abusos. Toda a corrupção teria que ser evitada ou punida. Haveria certamente uma desaceleração em todo este processo em que nos vemos metidos.
Há muitos anos que tenho a convicção de que é preciso desacelerar, travar o processo, analisar os danos provocados e recomeçar, gerindo os recursos de modo diferente. Como se, chegados ao fim de uma era, tivéssemos que, ainda sobreviventes animais inteligentes que somos, fazer um balanço, reorganizar o mundo, reestruturá-lo, detectar-lhe os erros – e, como se disso dependesse o futuro da Humanidade, viéssemos por meio da nossa causa exigir aos governos mundiais que os nossos filhos e os seus netos, a nossa geração, tenham afinal direito a existir e a acreditar que o mundo se pode tornar num lugar melhor para os seus filhos, para os seus netos…
A Humanidade somos nós todos e os que hão-de continuá-la. Como saber do curso da destruição que o ser humano está a impor ao planeta e continuar neste ritmo de devastação, mediante hipócritas possibilidades de pagamentos de tributos para pagar a destruição causada – impagável! -- como acontece com o negócio de Kioto, tomado apenas como o melhor dos piores exemplos. Tudo se resume afinal a uma questão de preço, não de consciência. Como saber e permitir?
Todos, jovens e menos jovens deviam sair para as ruas a lutar por esta causa. O ambiente é a mais urgente causa pela qual todos devemos hoje lutar. Assistirmos ao processo para a extinção do planeta, por via da informação a que hoje temos acesso, que aponta para a sua aceleração, torna essa a mais urgente das causas a agarrar se acreditarmos que ainda é possível pelo menos tentar desacelerar o processo, se acreditarmos ainda na possibilidade do planeta ter futuro.
Sabemos que a natureza é capaz de resistir e se regenerar. E a natureza humana?

5 comentários:

Visi disse...

Infelizmente quando alguém luta por uma "boa causa" é logo posta em "causa". Fazer o Bem é muito dificil!

Kaos disse...

Fiz um link para este post do WeHaveKaosInTheGarden

Kaotica disse...

A preguiça é um dos grandes males. Chegamos ao fim do dia de trabalho cansados. Até ao ministro dos Negócios Estrangeiros isso acontece. E depois, se os outros não se mexem, para quê mexer. Passa-se a vida na preguiça, a deixar andar. É um mal nosso contemporâneo. Deixamo-nos ir na onda até que a onda nos agarra. Entretanto perdeu-se a causa.

Alien David Sousa disse...

OLha Kaotica, eu ando a ver tudo preto nestes últimos dois dias, por isso, limito-me a dizer que infelizmente acho que estamos no principio do fim. E tenho medo.

Kaotica disse...

Eu nunca tive medo de andar de avião até ter que me meter num com os meus filhos. Estar neste mundo é uma sensação idêntica mas pior porque não podes desistir desta viagem.

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