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segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Dificuldade de Governar

1.

Todos os dias os ministros dizem ao povo

Como é difícil governar. Sem os ministros

O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.

Nem um pedaço de carvão sairia das minas

Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda

Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra

Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol

Sem a autorização do Führer?

Não é nada provável e se o fosse

Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.

E também difícil, ao que nos é dito,

Dirigir uma fábrica. Sem o patrão

As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.

Se algures fizessem um arado

Ele nunca chegaria ao campo sem

As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,

De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que

Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?

Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.

Se governar fosse fácil

Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.

Se o operário soubesse usar a sua máquina

E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas

Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.

E só porque toda a gente é tão estúpida

Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4.

Ou será que

Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira

São coisas que custam a aprender?

Bertolt Brecht

domingo, dezembro 02, 2007

Não te deixes murchar!


Letra para um Hino


É possível falar sem um nó na garganta
É possível amar sem que venham proibir
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.


É possível andar sem olhar para o chão
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetecer dizer não grita comigo: Não.


É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.


Manuel Alegre, O canto e as Armas


quarta-feira, julho 04, 2007

Palhacitos e parlapatões


(...)

Palhaço
lacrimogénio
capacete de aço
Vocês existem
baionetas e chá com bolo
corporativas, clubes de mães
concursos de gatos e cães
cães de luxo -- para lamber
cães polícias -- polícias cães
para morder
barracas de lata para viver
salários de fome para sofrer
trapos, suor e lodo
amáveis conversas de casaca
e sobre as nossas cabeças
a matraca

palhaço lacrimogénio
capacete de aço
ah! não há dúvida
vocês continuam a existir
até ao raio que vos há-de partir

Ary dos Santos

quinta-feira, junho 14, 2007

Sermão aos peixinhos da Net


Envie a SUA OBRA DE INTERVENÇÃO para AQUI


GAP, FALHA, INTERVALO; AUSÊNCIA.

OsFO+I WHP0FGUWE'F8'UIFDÇSPÇSJKP fkfgeg08efjeçfºfk+«ik0gr«+e´tgkºefke+' VJDFJKVIODSNVEMNVSFVP'SEJKV Kgjeipgegmºçºegv+'0jv vegmepp0eu0ugjegm,-vbhkpcobi XV KXGHVIUSDHFVES28hu280'0r2.pd90b'edugou Fouw9fyw+ijgoiej0eu>>>>>>>>>>>>>//////////////////// Bdfvrovkbpemve.''''''''''5986033' Eerwdldwdkçç.fg v iufvhiwfc9w dvhesfcgwscbk Sfgy9w7fy9woº

Voltámos.
Reticentes, renitentes e um pouco incontinentes.
Assim é.

Nos dias que correm no solarengo bocado fatiado e esventrado de país a que chamamos Portugal,

Assim é;
Voltámos.

O universo humano vai tão mal que nem dá para dizer o quão mal vai.

Ele é Iraque, ele é a puta desta crise, etc.
Por isso retomamos a tónica da esperança.
O que somos, como somos, ao que vimos.
Este vai ser portanto um texto religioso.
Um sermão.
E porque não?

Sermão de São Camarada Patrão aos peixinhos da Internet

Irmãos e irmãs
O que somos?
Ao que vimos?
O que nos trucida a alma e tolda a visão?
Em que é que passamos os nossos verões e invernos?
Em eterna labuta pela vida, mas sem saber o que valemos em nossa existência e para a dos outros.

Tu, que cobras 55 cêntimos por um café
Arrepende-te, irmão
Baixa o preço da divina bica
Pois tudo é Deus
Desde o grão da café à mais distante supernova

Tu, que usuras no imposto do tabaco
Arrepende-te irmão
Pois dos cigarros mais aspirados
Também saem ideias santas
De como destruir cancros e outras coisas nojentas

Tu, que cobras vinte euros por um cd
E persegues na internet quem tem IP
Arrepende-te irmão
A música é a sinfonia da vida
E o download (i)legal a fraternal maresia
Que a todos veleja, certa
Em direcção ao teu artístico concerto, um dia

Tu que aumentas a gasolina
E com isso o preço do suco das tetas da vaca
E das mais reles vinhas
Para não falar no pão
Na manteiga, na carne e na fruta
Arrepende-te, irmão
Vai enganar a cabra vazia
Que te deu à luz com valentia
Por não valeres um caralho
Com essa especulação sombria
Arrepende-te, irmão

Idem, para os irmãos das telecomunicações
E das TVs por cabo, filhos da puta, cabrões
Que cobram o couro e o cabelo
Por conteúdos de rabo
Sem não antes, com zelo
Deixarem crescer o apego
Dos telespectadores, seus escravos

E ainda para os gajos da luz
Com seus cérebros cheios de pús
Por ainda não terem percebido
Que quanto mais chulam o zé povinho
Mais acabam com o azevinho
Com que ornamentam
A coroa de espinhos
Que lá dos seus lugares de bandidos
Aplicam aos milhões de pobres de cristo
Com que calculam a margenzinha de lucro
E outros parâmetros fodidos

Tu, que prometes reformas
E dizes que este país assomas
Com a tua brisa celestial
À laia de herói nacional
Brincando aos políticos com tusa
Mas sendo tão impotente como a própria alma lusa
Arrepende-te irmão
Pára de enganar os profetas
E todos os outros ascetas
Pára de atirar esperança
No peso inerte na balança
E fala com os bancos, seguradoras e outras pestes
Ensina-lhes a refrear os apetites
E que há um Portugal melhor
Para quem queira ser mesmo livre
Úni-vos face à crise das crises

E caguemos no Presidente
Porque é dos que não empurra, nem faz frente
Simplesmente não está
Previsível espécie
De político, acéfalo, ausente

A parábola

No outro dia saiu um CD
Para miúdos, parecia, bem se vê
Com perguntas e respostas sobre o 25 de Abril
Vinha com um jornal qualquer
Seis euros e dez
Disse-me o homem da papelaria
Todo contente

Mas o que é esta merda?
É isto é que é ser português?
A porra do CD devia ser de borla
Ensinar devia ser o ariete do presente
Ensinar cidadania e história
História recente
Ensinar gente a ser gente
E não encher o bandulho
Usando memórias, cravos e outras vãs glórias

E vós, artistas da merda
Pintores, cantores e poetas
Flácidos actores de telenovelas
Intelectuais e pensadores da treta
Comentadores menstruais e analistas com cheta
Arrependei-vos
Pelo vosso silêncio de oiro
Como espiga podre de um tesoiro
Feito de curvas de barrigas
Por dietas milionárias despidas
Tudo é aparência, tudo é ilusão
Sem um mínimo de apego à vida
Sem um mínimo de revolução
Sem uma única ideia sentida
Fagulhita de criatividade
União, opinião reinvindicativa
Para que serve a arte então?
Deve ser para bater uma punheta
Sem utilizar a mão
Arrependei-vos, irmãos

E para finalizar,
uma palavrinha lá para a domus…

Tu, que pões os cornos mentalmente
A quem tens lá em casa, certamente
Com flirts e convites ausentes
Ao colega de trabalho, à colega ali à frente
Arrepende-te irmão, irmã
Ou despachas quem dizes que amas
Ou amas a quem cobres na cama
E fazes filhos imparável
Com quem não depois não estás
Deixa-te de patifarias inocentes
De quem ia comer um pastelinho de nata
E acaba a digerir a feijoada

Arrepende-te irmão, irmã.

Amén!

Poesia de intervenção.

Isto é poesia de intervenção
Pois é, pois é.
É poesia de intervenção.
Pois é, pois é.

É poesia de intervenção.

Eh, Camarada Patrão!


Aqui, antes não estava nada.
E, agora,
Continua a não estar.

in http://camaradapatrao.blogspot.com/2006/05/o-sermo-de-so-camarada-patro-aos.html



terça-feira, maio 01, 2007

Dia do Trabalhador

Que força é essa?

Letra e música: Sérgio Godinho
"Sobreviventes"; 1971

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro

Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 3]

Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes

(Que força...)

(Vi-te a trabalhar...)

Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 10]


Saiba aqui que força é esta

(repare como ainda hoje permanece actual)

quinta-feira, abril 26, 2007

Palavras de um poeta de Abril

25 de Abril de 2007 (Rossio)


Epígrafe
De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos blocos de cimento.

De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
--- expressão da multidão que está comigo.

José Carlos Ary dos Santos
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