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quarta-feira, julho 22, 2009

Ecologia de fraldas


Veja aqui a demonstração Quercus das fraldas reutilizáveis

(preços entre os 20 e os 30 euros a unidade)


«Alertar para as virtudes das fraldas reutilizáveis e para as desvantagens das descartáveis é o objectivo da campanha nacional lançada pela Quercus. Em 2008 foram parar ao aterro e à incineração 200 mil toneladas de fraldas, ou seja, 5,17% dos resíduos sólidos urbanos produzidos no país.» Público.

Daqui


Talvez alguns achem estranha esta minha preocupação com fraldas, ou julguem ser este um post absolutamente ecologista. De facto este fim de semana voltei a ficar bem sensível ao problema das fraldas. E tudo isto porque surgiu uma notícia muito feliz para toda a família: vem aí a caminho mais um bebé que só virá confirmar a tia babada que eu já sou e tornar o mundo mais risonho e colorido do que ele de facto é. Mas um bebé é sinónimo de mais fraldas no mundo e nós, mães de uma certa geração da fast-sheet, que aplaudimos este invento e o considerámos um dos melhores do século XX, vamos agora subitamente ter que inverter o processo e começar a sensibilizar as jovens mães cada vez mais atarefadas para as virtudes das fraldas reutilizáveis. Mas fralda reutilizável tem virtude? poderá com toda a razão perguntar a minha cunhada brasileira. Por isso não será nada fácil “vender" essa ideia de que fralda descartável já era, se nos dizemos defensoras da preservação do ambiente. Ainda bem que há uma Quercus para atirar com essa bujarda cá para fora, mas não sei até que ponto a iiniciativa motivará a acção. Mesmo as mulheres mais activistas que já se confrontaram com a situação de uma fralda completamente suja, depressa colocarão de parte suas convicções à primeira demonstração dos resultados.

Melhor seria pedir aos japoneses que inventassem uma fralda que se desintegrasse depois de cumprida a sua função.

terça-feira, julho 07, 2009

Vocações

Foto daqui

Ninguém se preocupa com a vocação natural das pessoas? Em minha casa tenho bons exemplos: uma filha que desde pequena revela uma imaginação prática prodigiosa e que pega nos mais diversos materiais e os usa em composições. A sua capacidade de lidar com a diversidade dos materiais, cores a até palavras, parece ilimitada. Se fosse incentivada poderia desabrochar esse potencial. A primeira impressão foi rejeitar o conhecimento e a escola. Teve pouca sorte de ir parar a uma escola perfeitamente des(ajustada), cumpridora das ordens do Ministério, das “mais papistas que o papa”. Sobreviveu ao clima conflituoso e repressivo, cheio de regras absurdas e intelectualmente pouco incentivador. Entretanto mudou de escola e integrou-se perfeitamente, compreendendo por fim o interesse no conhecimento transmitido. Interessou-se pelas matérias e apresentou um modo de estar exemplar, gostou do modo como a escola funciona. Começou a estudar e a mostrar interesses mais específicos, como podem ver pelo discurso. Esta pessoa humana podia e devia ser incentivada e as suas energias serem canalizadas para desenvolver as suas preferências, embora prosseguindo a instrução das outras matérias essenciais. O seu poder criativo devia ser acarinhado e estimulado para que se pudesse desenvolver sem entraves nem limites.

Já o meu filho mais novo antes de andar já gatinhava até à fechadura e trepava a porta para experimentar o mecanismo. Se apanhava um comando os botões eram todos dele. Um dia caiu-lhe um comando ao chão e desfez-se em bocados. Estava apressada e saí incapaz de resolver o problema. Quando voltei estava a funcionar e via-se televisão. Sempre teve genes de mexer com estas coisas fantásticas das tecnologias, como se tivesse nascido para isso. Mas vão ser-lhe facultadas as formas de se exprimir? Agora são os computadores e os jogos da playstation. Impossível de moderar. Salta de uns para os outros pela casa ou então anda de fisga atrás do cão ou a dar saltos como um macaco. Assim que começou a saber as palavras soletrava-as sem se enganar. Por isso dá poucos erros, como se nascesse ensinado a esse respeito. Na matemática aquilo ali não demora muito tempo a encontrar o resultado certo. Mas não estuda. Anda na tal escola onde ela andou. Gosta dos amigos mas não consegue ficar preso sempre aos mesmos e este ano partiu para outras amizades de interesses comuns. Não gosta de Ciências e História porque só estudando. Mas claro que com o facilitismo vigente lá tirou 3. Não estudou quase nada mas também não teve negativas. Teve 4 a Português e 4 a Matemática, o resto tudo 3. Talvez no fim tenha batido certo. Houve quem ficasse contente por ter melhores notas do que o irmão. É a competitividade. Não, isso não pode ser assim, tem que ser na base da cooperação. Uns não podem ascender colocando o pé na cabeça dos outros. Temos que avançar em conjunto dando o melhor. Como irmãos.

As férias têm sido péssimas para eles. Pouca saída de casa ou dos arredores. Agora vão libertar-se desse aperto, vão divertir-se num campo de férias. Quando era eu da idade deles ia para o campo, de férias, que é um conceito um pouco diferente. É a primeira vez que vão estar por sua conta e este ano ainda pertencem ao mesmo grupo. Vamos ver o que vai dar. Vai fazer-lhes bem mudar de ares.

sexta-feira, maio 01, 2009

1º de Maio - Dia do trabalhador desempregado

Primeiro 1º Maio em Portugal (Lisboa, 1974)

Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...),
o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois.
Fonte: "Assim Falava Zaratustra"
Autor: Nietzsche , Friedrich


Vou comemorar nas ruas o Dia do Trabalhador mas não quero desfilar de MayDay, nem de desempregada, nem de precária, nem sequer de sindicalista. Porque não quero a separação, quero a unidade de todos os trabalhadores em defesa dos seus direitos laborais. Estou desempregada mas o mal não está em mim, está no sistema pois poderia ser uma potencial trabalhadora se o sistema precisasse de mim. Não precisa, logo sou excedentária, mão-de-obra desocupada, improdutiva. Seja, não contribuo para aumentar o consumo, já que também não produzo. Para quê endividarmo-nos consumindo, tornarmo-nos dependentes, comprometidos com o sistema, sentindo-nos responsáveis por o manter. Vamos refrear o nosso consumo, só comprar o que realmente precisarmos. Seria um valente abanão no sistema capitalista, prescindirmos do supérfluo, procurarmos produzir aqui o essencial, com todos a trabalhar para esse fim, cooperando com outras nações unidas por um mesmo fim: gerir racional e equitativamente os recursos dos países, da Europa, do planeta.
Em nossa casa construímos uma cooperativa em que cada um contribui com o que pode. Seja de dinheiro, seja de trabalho. Assumo as tarefas domésticas porque não estando a trabalhar é essa a minha contribuição. Onde está escrito que sou obrigada a fazer o jantar? Se o faço é por que quero contribuir para o bem comum. E não me sinto exploradora nem explorada aqui. As mulheres fizeram muito mal querer ir trabalhar, eis um pensamento algo conservador, mas reformulável: tanto homens como mulheres deveriam poder dar a devida assistência à família, participar na vida doméstica, irem buscar os seus filhos à escola a tempo de lhes dar uma educação familiar. O sistema capitalista, onde todos têm que trabalhar para poderem subsistir, veio descaracterizar a célula familiar. Por isso tanto se fala em faltas de educação.
O aumento dos horários de trabalho abre portas a renovadas formas de escravatura. O fantasma do desemprego é convidativo à aceitação das condições, por piores que elas sejam, para manterem o emprego. Mas as pessoas ainda não se aperceberam que mais depressa perdem direitos do que os conquistam. Se obedecermos e cumprirmos, deixamos destruir os direitos conquistados no 25 de Abril, alguns já entretanto perdidos.
Ainda agora corremos o risco de permitir as 65 horas semanais que a Comissão Europeia queria aprovar. O Parlamento Europeu discordou ao fim de 5 anos sem se entenderem e a Comissão Europeia abandonou para já o projecto, com muita pena para alguns governos. Digo “para já” porque já não é a primeira vez que se vota um projecto anteriormente chumbado, batota usada por sistema pelas instituições europeias, de que o Tratado de Lisboa é o exemplo mais gritante. Na nossa modernidade acelerada e pouco consciente, esquecemos os avisos dos antigos que já tinham descoberto que aumentar o tempo de trabalho não é sinónimo de produtividade e muito menos de felicidade. E dizemo-nos nós europeus!


Trabalho e Descanso na Justa Medida


A mente não se deve manter sempre na mesma intenção ou tensão, antes deve dar-se também à diversão. Sócrates não se envergonhava de brincar com as crianças, Catão aliviava com vinho o seu ânimo fatigado dos cuidados públicos e Cipião dançava com aquele corpo triunfante e militar (...) O nosso espírito deve relaxar: ficará melhor e mais apto após um descanso. Tal como não devemos forçar um terreno agrícola fértil com uma produtividade ininterrupta que depressa o esgotaria, também o esforço constante esvaziará o nosso vigor mental, enquanto um curto período de repouso restaurará o nosso poder. O esforço continuado leva a um tipo de torpor mental e letargia. Nem os desejos dos homens devem encaminhar-se tão depressa nesta direcção se o desporto e o jogo os envolvem numa espécie de prazer natural; embora uma repetida prática destrua toda a gravidade e força do nosso espírito. Afinal, o sono também é essencial para nos restaurar, mas se o prolongássemos constantemente, dia e noite, seria a morte.


Séneca, in 'Da Brevidade da Vida'

http://www.citador.pt/

quinta-feira, setembro 04, 2008

È maravilhoso vê-los crescer

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"Interior de galinha"

Há uma dúzia de anos tive uma linda bebé que tiveram que ir com muito cuidado buscar lá ao quentinho onde estava escondida, preguiçosa de nascer. Na altura não se sabia o sexo devido à posição em que colocava as pernas. Quando saiu cá para fora vinha sem beliscadura, sem passar por nenhum tipo de sofrimento. Puseram-na em cima de mim e por esse momento inesquecível ainda hoje fico feliz por ter sido operada com a epidural, podendo estar acordada para a receber. Passou por uma fase em que tinha pena de já não ser mais bebé, querendo prolongar esse tempo, o que me faz acreditar que teve uma infância feliz (é tão importante ter-se uma infância que se recorda como um tempo de felicidade!). Depois passou pela fase do cor-de-rosa e do mundo maravilhoso das princesas, dos vestidos de menina que já nem se encontravam nas lojas na altura. Agora deu um grande salto e deixou tudo isso para trás. Mudou muito por fora, embora, como ela mesma diz, continue com a mesma carinha… Está em nítido processo de mudança na forma como pensa, como emite os seus juízos, como se relaciona com as pessoas e como afirma a sua própria consciência de mudança. Está a crescer. E é realmente maravilhoso assistir à sua evolução.

Vejo-a sempre como uma potencial artista porque é muito criativa no uso dos materiais. Era muito pequena e já trazia do jardim pedras, paus, folhas, sementes e flores para fazer as suas composições. E sempre foi assim, inventiva. Este desenho foi ela que fez. Tenho milhares de desenhos, esculturas, bonecos de rolos de papel higiénico acabado e, mais recentemente, de pano, cosidos. Quando tem aulas sente-se sempre frustrada por ter pouco tempo para si própria e para dar largas à imaginação. Já demonstra ânsias de independência e começa a saber bem o que quer e o que não quer.

Estou muito feliz por ela existir.


sexta-feira, março 21, 2008

A Escola dos famosos I

Hoje em dia o que está a dar é ser famoso. Ora como pode um aluno comum da Escola Pública, um entre muitos, todos em busca da fama, tornar-se famoso, ser digno da admiração dos colegas, fazer-se respeitar? Para tal ele recorrerá a todos os métodos, observando primeiro atentamente o que se passa à sua volta, quem vai às televisões, de quem se fala, quem são as figuras que geram maior polémica, quais os colunáveis. Copiando os modelos, ele começa então a dizer asneiras como os políticos, seus "actores" favoritos (Alberto João Jardim, Berlusconni, Sarkozy); a desprezar os professores ao modo do Miguel Sousa Tavares, do Emídio Rangel e da própria ministra; a mentir à descarada como um Bush, um Paulo Portas ou um Sócrates; a dar-se ares do que não se é como um Paulo Pedroso, um Albino Almeida ou um Cavaco Silva e a aproveitar a ocasião (a ocasião faz o ladrão) como uma Fátima Felgueiras, um Valentim Loureiro ou um Isaltino Morais. Reunido todo este manancial, resta-lhe encontrar um estilo próprio, de gingão mal-educado, enfiar um carapuço e não falar com ninguém para não deixar escapar entre dentes tamanha ignorância, a não ser para dizer asneiras. O telemóvel é-lhe um objecto indispensável pois só por aí se poderá expressar dando erros deliberados, filmando cenas porcas, usando e abusando da calculadora e escondendo a sua pobreza franciscana atrás da marca e do visual.
Os professores destes meninos tendem a culpar os pais e nunca todo o sistema da sociedade. Chamam-lhes destruturados, referindo-se à falta de estruturas da família. E não se apercebem que eles próprios estão destruturados, fragilizados por esse mesmo sistema que preferem ignorar.
Senhores professores: para quando uma aula que nos venha elucidar que tudo isto não passam de efeitos? Quando veremos esta classe de gente informada, mostrando que é realmente informada, lúcida e consciente, apontar o dedo às verdadeiras causas do caos em que se vem tornando a educação?

segunda-feira, maio 21, 2007

Imprensa obscena


Agregados de um casal com filhos desceram abaixo dos 50 por cento

Portugueses não querem ter mais tempo para a família, ao contrário da maioria dos europeus

20.05.2007 - 08h37 Clara Viana Ler toda a notícia aqui

Estas “gordas” da primeira página do jornal Público de ontem são uma obscenidade. A grande maioria dos portugueses que passam pelas bancas e olham os jornais de soslaio vai pensar: “Grandes malandros (os outros) essa malta agora não quer é passar tempo com a família!”. Mas se olharmos mais atentamente para esta notícia, veremos que analisa um estudo do INE que aponta para um novo dado – os tradicionais “casais com filhos” pela primeira vez descem abaixo dos 50% (46,8% em 2006). O resto é, segundo o Público, malandragem que não quer passar tempo com a família.

Será mesmo assim, ou este título da edição impressa do Público tenciona mesmo esconder os verdadeiros motivos para estes números? Não querer é uma vontade pessoal, individual e independente de cidadãos livres e tem toda a legitimidade. Cada um está no seu direito de querer ou não passar mais tempo com a família. O problema aqui é que eu duvido que sejam essas as motivações de existirem cada vez menos casais a terem filhos. Os portugueses não têm filhos porque não têm confiança no Futuro. Mesmo não lendo para além dos cabeçalhos, eles sentem que isto não vai nada bem. Perdem-se empregos, os euros nas mãos dos portugueses desvalorizam, não há dinheiro para pagar os empréstimos, pedem-se mais empréstimos, o ensino não está bom para crianças, a vida também não… os portugueses têm cada vez menos filhos porque têm cada vez menos segurança e confiança no futuro. Pois se eles nem sequer têm confiança no presente...

Desta forma, ficam escondidas por detrás do conteúdo explícito da manchete, todas estas causas. Estas ninguém faz por apurar. Permanece a perigosa ideia geral de que os portugueses têm uma fraca vontade de dispender o seu tempo com a família. E nada mais por detrás dessa falta de querer. São eles os responsáveis, são eles os que não querem!

Quantos portugueses hoje vivem em condições precárias? Quantos estão endividados? Quantos estão desempregados ou mal empregados? Quantos têm contrato de trabalho que lhes dê garantias de emprego futuro? Quantos em idade de constituir família dispõem de casa, de emprego, de um futuro?

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