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terça-feira, outubro 26, 2010

«É negra a terra, é negra a noite, é negro o luar. Na escuridão, ouvi! há sombras a falar: »


Falam as Escolas em Ruínas:

A alma da infância é um passarinho;
Gorjeia o ninho e a escola chora:
Ma infância cai a noite; e o ninho
Tem sobre as plúmulas d'arminho
A aurora.

A alma da infância é flor mimosa;
A escola é triste e a flor vermelha:
Na escola paira a c'ruja odiosa,
E sobre o cálice da rosa
A abelha.

Tu fazes, Pátria, as almas cegas,
Pendendo a infância num covil.
Aves não cantam nas adegas;
Se a infância é flor, porque lhe negas
Abril?!

in Finis Patriae, Guerra Junqueiro

quarta-feira, março 18, 2009

Velhos poemas de poetas

"Canção de Batalha" (1)

"Que durmam, muito embora, os pálidos amantes,
Que andaram contemplando a Lua branca e fria...
Levantai-vos, heróis, e despertai, gigantes!
Já canta pelo azul sereno a cotovia E
já rasga o arado as terras fumegantes...



Entra-nos pelo peito em borbotões joviais
Este sangue de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que somos nós? Ferreiros d'arsenais;
É bater, é bater com alma na bigorna
As estrofes de bronze, as lanças e os punhais!

Acendei a fornalha enorme – a Inspiração.
Dai-lhe lenha, – a Verdade, a Justiça, o Direito
E harmonia e pureza, e febre e indignação;
E p'ra que a lavareda irrompa, abri o peito
E atirai ao braseiro, ardendo, o coração!

Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio; embora!
O poeta é como o sol: o fogo que ele encerra
É quem espalha a luz nessa amplidão sonora...
Queimemo-nos a nós, iluminando a terra!
Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!"

(1) Guerra Junqueiro, "Canção de Batalha", in Poesias Dispersas, Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão – Editores Lda., 1920.

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/ensaio51.htm

domingo, julho 06, 2008

(Des)horas de Luta

Ó pobre Portugal, mandado por todos, ludíbrio das gentes,
triste nação já saqueada do que possuías no Oriente
para «ganhares» a dinastia brigantina
e agora ameaçada de perderes a África
para conservares os teus reis «liberais» e forasteiros!

Eles que não tinham nas veias sangue português,
não coravam de vender a nação...


(Oliveira Martins - Portugal Contemporâneo)


FINIS PATRIAE *

(A Mocidade das Escolas)

É negra a terra, é negra a noite, é negro o luar.
Na escuridão, ouvi! há sombras a falar:

Falam as escolas em ruínas:

A alma da infância é um passarinho;
Gorjeia o ninho e a escola chora:
Na infância cai a noite; e o ninho
Tem sobre as plúmulas d'arminho
A aurora.

A alma da infância é flor mimosa;
A escola é triste e a flor vermelha:
Na escola paira a c'ruja odiosa,
E sobre o cálice da rosa
A abelha.

Tu fazes, Pátria, as almas cegas,
Prendendo a infância num covil.
Aves não cantam nas adegas;
Se a infância é flor, porque lhe negas
Abril?!

Guerra Junqueiro
(in Patria, 1890))

* O Finis Patriae foi escrito a propósito da afonta sofrida por Portugal aquando do Ultimatum (1890) mas muito do seu conteúdo continua a fazer sentido no Portugal dos nossos dias, afrontado pelos nossos governantes e pelas directivas europeias que os governam a eles. Aconselho a sua leitura integral.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

O Carnaval não é de hoje...


Pátria (Guerra Junqueiro), 1896

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;

um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem,
nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.
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