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quinta-feira, maio 15, 2008

Só os verdadeiros pulhas desprezam a música!

A música, essa aliada esquecida da matemática

A pretexto de uma conferência com especialistas internacionais para debater o insucesso na disciplina de Matemática em Portugal, a Ministra da Educação veio chamar a atenção para o “passivo enorme” nesta área. Atribuídas (mais uma vez) as culpas aos professores, estando presentemente alguns milhares a receber formação contínua nesta matéria; lançado um Plano de Acção para a Matemática, aumentando a carga horária na disciplina, resta-nos prever quais serão as recomendações que resultarão de mais esta conferência.
Porventura os sucessivos responsáveis pela pasta da educação em Portugal – eles próprios fruto de uma sociedade com fraquíssima cultura musical – não têm sido sensíveis ao papel fundamental que a música pode e deve ter na formação integral do indivíduo, não só ao nível da sensibilidade estética e do desenvolvimento emocional mas também ao nível da estruturação do pensamento lógico e do raciocínio matemático/geométrico, estimulando a concentração, disciplinando a actividade de grupo, favorecendo a comunicação, a cooperação e a entreajuda – tudo isto num clima de grande criatividade e franco prazer.
No entanto, desde Pitágoras – que para além de um contributo fundamental para a Matemática e a Geometria, também estabeleceu as bases da Teoria Musical – têm vindo a comprovar-se as muito estreitas relações entre a Música e a Matemática.
Na verdade, vários estudos revelam que a maioria dos jovens que aprendem música, para além de serem alunos mais criativos em todas as áreas, também obtêm bons resultados em Matemática, sendo certo que, para alem de um papel muito positivo no ensino de crianças disléxicas e autistas, a Música é, de facto, aquela aliada que, como por encanto, leva qualquer criança a fazer a ponte entre o concreto e o abstracto, levando-a a descobrir novas formas de comunicação e linguagem e ajudando-as assim a apreender a lógica e a simbólica da Matemática.
A Educação Musical consta, de facto, do currículo da escola em Portugal desde 1971, ano da reforma de Veiga Simão que introduziu alterações significativas neste campo. No entanto, ao contrário do que sucede em muitos outros países, para lá de se iniciar já numa idade tardia, a Educação Musical tem estado confinada ao 2º Ciclo do ensino básico – no 3º Ciclo tem expressão muitíssimo limitada – e, a partir da última reforma curricular, a sua carga horária sofreu mesmo uma redução substancial de 45 m, passando a dispor apenas de 90 m semanais.
Foi feita alguma avaliação destas reformas?
Ainda a este propósito, é importante também referir que uma manifesta falta de instrumentos disponíveis nas salas de aula – e o facto de muitos dos que existem já estarem danificados – o que limita, muitas vezes, os professores a um ensino elementar da prática de flauta, impedindo, dessa forma, os alunos de adquirirem as “competências” (irrealistas) previstas para a disciplina pelo próprio Ministério da Educação.
A nível do 1º Ciclo, a recente introdução do ensino da Música, embora louvável, mais não fez do que pôr em prática um aspecto que, previsto no currículo, geralmente se não cumpria, sendo que os professores, recrutados em empresas privadas, trabalham em condições muito discutíveis.
Como se tudo isto não bastasse, mais recentemente ainda, sob a capa de uma alegada “Democratização do Ensino Artístico” o Governo decidiu acabar com o chamado regime de ensino supletivo, que permitia a frequência de disciplinas de formação especializada nos Conservatórios, a par das de formação geral numa escola à sua escolha.
Promovida pela Unesco, teve lugar em Lisboa, em 2006, a 1ª Conferência Mundial de Educação Artística, da qual resultaram orientações importantes no domínio da educação artística. A sua aplicabilidade foi debatida no ano seguinte na Conferência Nacional de Educação Artística. Que repercussões têm tido eventos como estes no ensino da Música em Portugal?
O Ministério da Educação insiste agora na avaliação dos professores mas não deveria ser o próprio Ministério a ser objecto de avaliação, entre outras coisas, pela sua manifesta desatenção relativamente ao ensino da Música?
Ainda vamos a tempo de investir numa formação musical de qualidade desde o jardim de infância, da qual a Matemática, bem como as outras áreas possam vir a beneficiar e de que possa resultar um maior equilíbrio emocional dos jovens.
Sigamos então as tão apregoadas “boas práticas”: sigamos o exemplo da Finlândia onde os pais podem mandar os filhos para escolas de música patrocinadas pelo estado desde tenra idade; sigamos o exemplo da própria Venezuela (retratado numa reportagem transmitida na televisão há dias), onde a fundação «El Sistema» recorre à música para reabilitar, ensinar e proteger crianças de meios desfavorecidos, prevenindo comportamentos criminosos...!
Leibniz (filósofo e matemático alemão) afirmou: Musica est exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi (A música é o exercício oculto de matemática do espírito que não se apercebe que calcula).
Os fracos resultados dos estudantes portugueses na disciplina de matemática estarão, seguramente, na proporção exacta do desprezo que tem sido dado ao ensino da Música na Escola Pública.

Isabel Guerreiro
Professora de Educação Musical do Ensino Público
Monte Estoril

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Este desafio... é música para os meus ouvidos:


A pedido da Renda de Bilros…

"Tenho que confessar as músicas que eram especiais na minha adolescência"

Ainda antes do 25 de Abril ouvia no rádio A Banda, cantada no sotaque doce do Chico, e ficava encantada de haver música para além dos “nossos” Antónios que também passavam na altura no rádio (António Calvário, António Mourão e outros que não sendo Antónios eram tão Antónios quanto estes); isto ainda na fase a que chamamos hoje a "pré-adolescência":

http://www.youtube.com/watch?v=wFPPawLq_5Q

Podem não acreditar mas quando andava na preparatória, convidei os meus colegas para a minha festa de anos lá em casa. Juntaram-se 3 e perguntaram-me o que é que eu queria que me oferecessem. Resposta: o “Animals” dos Pink Floyd (infelizmente o meu irmão era mais velho, tinha dinheiro e, naquela altura, mandava vir de Londres os discos que por lá iam saindo, por isso eu ficava sempre com os segundos discos: ele tinha o Darkside e o Wish you were here; eu tinha o Animals. Ele tinha o A Night at the Opera; eu tinha o A Day at the Races. Ele tinha o Crime of the Century; eu tinha o Crises What Crises? – uma injustiça!) O que vale é que os ouvia depois a todos no psicadélico quarto dele, às escuras, com focos às cores e em altos berros, como convinha. Ainda hoje adoro a música dos Pink Floyd!:

http://www.youtube.com/watch?v=CydPIf3b-Mc&feature=related

Depois veio o 25 de Abril e com ele uma lufada de ar fresco na música portuguesa. Nesta fase cheguei a ouvir no Rádio Clube um Canto Livre em directo em que o Sérgio Godinho democraticamente perguntava aos que lá estavam: “Querem ouvir o Paco Bandeira? Ele está aqui para cantar para vocês” e ouvia-se a pequena multidão: “Nããããããooooo!” E o Paço Bandeira metia a viola no saco e ia para casa. Dessa época podia citar de cor, como ainda hoje as sei de cor, muitas músicas do pessoal das cantigas, mas vou dedicar este espaço musical ao Zeca Afonso porque ele foi até ao fim um dos grandes animadores e a sua mensagem está hoje bem viva e actual:

http://www.youtube.com/watch?v=2yZkC3YCU20

Como toda a gente passei pela fase romântica num tempo em que os slows ainda estavam na moda nas festas de garagem. Tive sorte: vivia numa vivenda com garagem e a festa era em minha casa. Sorte de eu ter um irmão sete anos mais velho que adorava música e que me dava a conhecer a boa música de todas as épocas. Sorte de eu, apesar de mais nova do que aquela gente toda, poder estar presente nas festas e, apesar de ser a “chavalinha nova” ser quase sempre convidada para dar um pezinho de dança, sempre com muito respeitinho por ser a mana mais nova do dono da festa. Era o tempo dos lugares comuns e esta música é um marco para essa geração onde ainda havia tempo e paciência para a arte da conquista através dos slows:

http://www.youtube.com/watch?v=IGiZWHL6wD0

Depois, em plena adolescência tive os meus momentos de revolta. Chegava a casa de cabeça cheia e queria era fechar-me no meu quarto para ninguém me partir a cabeça. Aí era inevitável a “violência”: ouvia bem alto os Ramones, os AC/DC, os Sex Pistols e agora à distância penso que era um verdadeiro bicho do mato para o pessoal lá de casa; e ainda me dava ao luxo de chamar “betinho” ao mano velho por ele continuar a ouvir boa música de todos os géneros: até os Bee Gees! Não havia eu de ser a ovelha negra da família! Havia em especial uma música que me dava vontade de partir coisas, não me perguntem porquê… mas nunca parti nada, apenas pensava nisso:

http://www.youtube.com/watch?v=BD6v-cSbrpc

Claro que pouco depois voltei a acalmar, embora continue a gostar destas coisas todas. Tive a fase do jazz, e a fase da música francesa, principalmente remexendo nos LPs antigos que havia lá por casa dos meus pais. Hoje em dia sou uma confluência de estilos e de épocas, até de música clássica eu gosto. Por isso quando me perguntam se gosto de música respondo: sim, de BOA música!:

http://www.youtube.com/watch?v=b5WVkl_f7_E

Mas às vezes dou por mim a saber de cor e a cantar as músicas que a minha filha (pré-adolescente) ouve na Rádio Cidade, algumas, muito poucas (aqui para nós: quase nenhumas!). Por isso volto sempre às MINHAS músicas:


Passo o desafio aos autores dos seguintes blogues:

segunda-feira, outubro 01, 2007

Dia Mundial da Música


Chichorro, Aula de Música


"Music was my first love and it will be my last..."
Eric Carmen

Tenho muita pena que os meus pais nunca me tivessem levado a ter aulas de música. Verdade seja dita que na família não há ninguém que toque um instrumento. Mas felizmente em minha casa sempre se ouviu música. Música de todos os géneros, mas boa música. Lembro-me de ser uma criança muito pequena no dia em que me refugiei debaixo da enorme secretária do meu pai para que se esquecessem de me mandar para a cama. E ali fiquei noite dentro ouvindo uns certos discos que vinham de França camuflados dentro de outros discos que um amigo do meu pai trouxera. Foi aí que ouvi pela primeira vez a música do José Mário Branco: "Um e dois e três, era uma vez um soldadinho/de chumbo não era porque era um soldadinho/(...)/ os senhores da terra o mandam pra guerra morrer ou matar/(...). Parecia uma música para embalar crianças mas a mim tirou-me o sono. Ainda hoje a oiço.
Mais tarde, na fase adolescente mais exacerbada, corria para a sala e punha no gira-discos (grande cota!) os discos do Chico Buarque, aquelas canções de amor de vir às lágrimas, e dava início à minha catarse chorando copiosamente as mais das vezes não tendo nenhuma paixão frustrada. Aquilo fazia-me mal e fazia-me tanto bem! Saía dali com a alma lavada.
E lá em casa por sorte ouvia-se música francesa: Brel, Jean Ferrat, Leo Ferrè, George Brassens, Piaf, etc. etc. E há muito tempo atrás, a minha mãe chegava e punha ritmos latinos e dançava comigo na sala -- foi há tanto tempo!
Finalmente tive a sorte de ter um irmão que ouvia música todo o tempo. Foi a fase psicadélica. Ele mais velho que eu sete anos deu-me a conhecer tudo o que de bom se fazia nos anos 70 e depois 80. Tínhamos uma cave onde era o quarto dele onde se podia ouvir música bem alto, com luzes psicadélicas como numa discoteca.
Depois vieram as paixões: uma delas um músico; nunca conseguiu me ensinar, embora não tenhamos feito muitas tentativas nesse sentido. Dizia que eu não desafinava a cantar mas que a assobiar era de fugir. Sempre houve um qualquer senão para eu não me sentir à vontade para aprender. Por exemplo: eu que nunca toquei e não sou canhota em nada, sempre peguei espontaneamente numa viola ao contrário (terei sido uma Joan Baez noutra encarnação e não sei).
Oiço música todos os dias, em todas as salas da minha casa há sempre pelo menos uma música a tocar e este ano a minha filha foi aprender viola clássica. Temos um trato de ela me ensinar. Será que vamos conseguir?

Música até os bichinhos gostam!

sábado, março 31, 2007

Because The Night

Marc Chagall, Lovers

(Bruce Springsteen/Patti Smith)

take me now baby here as I am
pull me close, try and understand
desire is hunger is the fire I breathe
love is a banquet on which we feed

come on now try and understand
the way I feel when I'm in your hands
take my hand come undercover
they can't hurt you now,
can't hurt you now, can't hurt you now
because the night belongs to lovers
because the night belongs to lust
because the night belongs to lovers
because the night belongs to us

have I doubt when I'm alone
love is a ring, the telephone
love is an angel disguised as lust
here in our bed until the morning comes
come on now try and understand
the way I feel under your command
take my hand as the sun descends
they can't touch you now,
can't touch you now, can't touch you now
because the night belongs to lovers ...

with love we sleep
with doubt the vicious circle
turn and burns
without you I cannot live
forgive, the yearning burning
I believe it's time, too real to feel
so touch me now, touch me now, touch me now
because the night belongs to lovers ...

because tonight there are two lovers
if we believe in the night we trust
because tonight there are two lovers ...

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

JP Simões - Vi e gostei!

Ontem acordei ao som de JP Simões. Era uma gravação ao vivo, para a Sic Notícias apresentar, como apresentou, ao longo desse dia. Vi de manhã, vi à noite e voltei a acordar de um leve sono, para o ouvir pela madrugada. E sim, eu sou de paixões assim arrebatadas pelos músicos que realmente me caem no gosto. Tenho paixão por Chico Buarque e, não posso deixar de ver com bom grado alguém do meu país a seguir-lhe as passadas. Nem é bem isso, porque não me parece que a personalidade se fique pela cópia, é mais uma influência forte confessada, uma muito boa influência, a meu ver. Não é a única. JP revela-se um excelente intérprete de José Mário Branco, outra das minhas velhas paixões, que mais do que nunca não pode ser esquecida. E tem outra coisa: JP não se coíbe de colher uma influência declarada da música brasileira, que eu tanto gosto, que tão bem lhe assenta. Quanto ao seu percurso, tenho gostado de tudo onde tem tocado: Pop Dell Arte, Belle Chaise, Quinteto Tati, Wordsong, e agora a solo.

“Gosto não é critério de vida!” – afirmou-me um dia um dos melhores professores que tive. Era, é, de facto um bom professor, um mestre capaz de formular mais perguntas do que respostas e de transmitir o conhecimento, e que conhecimento, das culturas clássicas. E tenho pena que ele tenha certa razão quando diz que não é critério de vida, mas nunca consegui concordar com ele totalmente porque a minha experiência de vida diz-me o contrário. Há vezes em que o gosto é critério e o uso e o abuso dessa minha intuição não me tem deixado mal, antes pelo contrário. Bom seria que pudéssemos exercer mais vezes e sobre mais coisas esse qualitativo critério de vida mas, pelo menos exerçamo-lo nas artes que aí ninguém no-lo pode tolher.

Nunca fui daquelas pessoas que apuram o seu gosto num sentido, o tipo de amantes da arte muito selectivos e compartimentados. Pessoas que dizem só gostar de X ou de Y, deste ou daquele género musical. Costumam dizer que tudo o mais não presta, obstinando-se em conhecer tudo e saber tudo sobre determinado artista. Fecham-se ao conhecimento de outros artistas, só têm ouvidos para o que já conhecem e decretaram ser o melhor.

Normalmente tenho os ouvidos e o coração bem abertos a tudo o que aparece. Ou gosto logo, muitas vezes sem fazer a mínima ideia de quem é o artista, ou não gosto nada e está o caso arrumado, neste caso dificilmente venho a gostar. Mas há coisas que são imediatas e às vezes basta uma voz, uma forma de cantar, para me encantar. Foi o caso de JP Simões: ouvir, ver e gostar. E, quanto mais vejo e oiço, mais gosto. Por isso ontem vi repetidamente as poucas músicas que gravou e soube-me sempre a pouco porque conheço bem todo o disco e queria ter ouvido todas as músicas. E, pela sua presença, cada vez sinto mais vontade de o poder ver ao vivo, o que ainda só aconteceu uma vez, no CCB, integrando o projecto Wordsong/Al Berto.

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