domingo, dezembro 10, 2006

Desafio 5ª. Edição: «Teia de Cristal»

Faltavam somente quinze dias para o Natal. Aquele seria sem sombra de dúvidas o Natal mais importante da sua vida. Ele ia chegar e finalmente iam estar cara a cara depois de tantas noites em que ambos se encontravam nos blogs. Não havia dia nenhum em que não se visitassem trocando comentários. Parecia que se conheciam desde sempre e no entanto agora vinha-lhe uma espécie de ansiedade, uma excitação expectante por ver o seu rosto, por saber que faltava pouco mais de uma semana para ouvir o som da sua voz, olhar a cor dos seus olhos, que afinal não sabia qual era. Trocavam sobretudo impressões sobre o que cada um postava, quase sempre poemas ou imagens que os iam revelando. Parecia-lhe terem tanto em comum.
Era chegado o dia de fazer a árvore de Natal. Tinha comprado novos enfeites meticulosamente escolhidos para o pinheiro natural. Não, este Natal nada podia ser artificial, tudo tinha que ser feito com muito bom gosto pois ele parecia-lhe ser uma pessoa de gostos requintados. Nada podia ser deixado ao acaso.

Colocou a árvore num belo pote de rica faiança adquirido propositadamente para o efeito. Abriu as caixas dos enfeites: belas bolas vermelhas de vários tamanhos espelhavam anjos papudos de uma brancura imaculada, fitas bordadas de oiro para ornar as extremidades com laços, brilhantes figuras em miniatura reproduziam as mais altas personagens do presépio, um luzeiro de candeias a acender e a apagar que lhe tinha custado tão caro. Sim, este Natal não tinha olhado a gastos: nada made in China, nada de plástico, tudo comprado nas mais caras lojas de decoração, nos melhores materiais: vidro e metal, sedas e rendas, brilhos e dourados.

Estava pronta, agora só faltava a estrela que os reis magos seguiram para encontrar o caminho que os levaria onde se dera o milagre. Também ela queria que ali na sua casa, repleta agora de luz, brilho e cor, se desse o milagre. Aquele homem era o seu destino, tudo levava a crer.

No dia da chegada ela própria se decorou meticulosamente dando atenção a cada pormenor do seu visual. Afinal não podia ficar atrás das belas divas que ele tinha por hábito colocar no seu blog, sofisticadas ladies que lhe faziam sentir um certo despeito que sempre dissimulava gabando a qualidade das imagens que escolhia. Aquele homem devia apreciar uma mulher que não descurasse dos mais pequenos pormenores. Ela tinha que estar à sua altura. Comprou vestidos nas mais caras boutiques, estonteantes langeries, vários pares de sapatos da melhor qualidade. Foi a um salão de beleza fazer todo o tipo de tratamentos, pintou o cabelo, deixou que lhe fizessem um corte ultra-moderno. Por fim, quando se olhou no espelho mal se reconheceu, era outra mulher. Estava pronta para o encontro.

Chegou cedo ao aeroporto, levando consigo o cartão identificador com o nome do seu blog, conforme o combinado.

O avião aterrou. Uma agitação interior percorreu todo o seu ser. Qual iria ser o cumprimento inicial? Compôs a maquilhagem não exagerando no blush com medo de corar naturalmente ao vê-lo dirigir-se a si. Como seria ele? Como seria?

Começaram a sair todo o tipo de passageiros. Os seus olhos ávidos percorriam os homens mais elegantes, à sua procura. Na mão levantada e ligeiramente trémula o cartão exibia
www.teiadecristal.blog.com
Subitamente um homem demasiado novo surgiu caminhando despreocupadamente na sua direcção. Vinha descuidado, barba por fazer, sem malas, só um saco desportivo ao ombro e a mala do portátil. Sorria despretenciosamente para ela. Incrédula, foi mirando-o de alto abaixo, à medida que se aproximava num passo flexível, ténis e calças de ganga bastante coçadas, blusão descontraído. Parou à sua frente e disse-lhe numa voz que lhe soou inesperadamente irónica: “És mesmo tu?” Inclinou-se para a cumprimentar com dois beijos triviais nas faces. Mesmo do alto dos seus saltos teve dificuldades em lhe chegar a cara. Os seus olhos tinham uma cor indefinida e pareceram-lhe risonhos pela situação.
Começaram a caminhar lado a lado. Tantas coisas que ela tinha encenado para lhe dizer e agora estava ali vazia, sem saber o que pensar. Passaram pela árvore de Natal do Aeroporto. Era um belo pinheiro natural, maior do que o dela, e estava decorado com grandes bolas douradas e enormes laços vermelhos e verdes. Ele olhou-o franzindo o sobrolho e desabafou: “Já viste? O Natal fez mais uma vítima. Que crime fazerem isto à árvore! Todos os anos é a mesma coisa! E os dourados? E os laçarotes? Uma árvore assim decorada perde toda a sua dignidade! Sabes, detesto novos-riquismos, e tu?”

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Este conto participa na 5ª edição dos desafios de criação, cujo ponto de partida é o Natal. Os participantes, que se comprometeram publicar em simultâneo às 21horas de Portugal e às 17 horas do Brasil hoje, são:

Bill - Realidade Torta
Clarissa - Instantes Clarissa
Conteúdo Latente - Conteúdo Manifesto
Ipslon - Tetros
Isa - Piano
Maite - A quilómetros de mim
Parrot - Incomplete
Pedro Pinto - Sexta Feira-Thales
PiresF - A Rua dos Contos
Raquel - (…)
Rui Semblano - A Sombra
Vanessa - Voz Calada

Convidados a participarem pela primeira vez:

Beatriz – Se perguntarem por mim, digam que voei
Kaotica - O Pafuncio
Klatuu - Crónicas da Peste
Legivel - Papel de Fantasia
Luís teixeira - Chama Lunar
Rafaela - Fragmentos de um Espelho
Ruy Soares - Blogdoruy
TB - Linhas de Pensamento
Teresa Durães - Voando por aí

23 comentários:

ThAlEs disse...

Gostei muito.
*

tb disse...

Parabéns! Gostei imenso. Que sorte onhecer um homem diferente... :)
Beijinhos

Parrot disse...

Um conto de Natal, muito virtual, mas dos nossos dias. Muitas vezes faz falta isso, retirar as personagens do presépio e tornarmo-nos participantes.
Gostei muito, parabéns.
Feliz Natal

Teresa Durães disse...

Vim li e gostei!

PiresF disse...

E estavas tu com medo…

Está lindo. Uma história que para além de original é perfeitamente actual e que, revela bem os possíveis enganos que a blogosfera pode gerar e gera.

Gostei muito. Mesmo. Do coração.

Enorme abraço.

Bill disse...

Salve salve...

Bom devo dizer que estou rindo de orelha e orelha...

Que maravilha, já gostei logo de inicio ao notar a atualidade e a verdades descritas... Cada passo da moça, eu que fui ficando nervoso para chegar logo o natal...
Não imaginava que irias aprontar isso para a moça...
Passou-me a cena na cabeça, imaginando a cara dela com essa ultima pergunta, hahha realmente fabuloso seu conto, parabéns, ficou simplesmente fantástico.

Abraço,

Boa noite e otima semana

[s]s

Kaotica disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Sílvio Mendes disse...

O argumento está perfeito.
Gostei muito da subtileza.
Gostei muito, ponto.

**

legivel disse...

É um texto com um belo andamento e um final para o leitor dar voltas à cabeça a imaginar sequências:
Ela arranja uma situação e consegue substituir o Pinheiro Natural por um Chinês?! ou Ele ainda consegue ver a substituição do Pinheiro por um Chinês e percebe que se meteu numa cena de sexo sem fronteiras?!

Por muito que se arrepelem os virtalistas, a escrita nunca substituirá a oralidade-olhos-nos-olhos. E mesmo essa... é o que se sabe.

Coitado do Pinheiro!... e do Chinês.
Abraço.

Anónimo disse...

Que grande lição de Natal, não é? :) Nada melhor que sermos nós proprios, por trás de um computador e para além dele...

Muito boa a ideia, gostei muito!

E com este Conto de Natal fiquei a conhecer mais um blog que vale a pena! :)

Beijinhos*

Anónimo disse...

Que grande lição de Natal, não é? :) Nada melhor que sermos nós proprios, por trás de um computador e para além dele...

Muito boa a ideia, gostei muito!

E com este Conto de Natal fiquei a conhecer mais um blog que vale a pena! :)

Beijinhos*

Anónimo disse...

Que grande lição de Natal, não é? :) Nada melhor que sermos nós proprios, por trás de um computador e para além dele...

Muito boa a ideia, gostei muito!

E com este Conto de Natal fiquei a conhecer mais um blog que vale a pena! :)

Beijinhos*

Anónimo disse...

Que grande lição de Natal, não é? :) Nada melhor que sermos nós proprios, por trás de um computador e para além dele...

Muito boa a ideia, gostei muito!

E com este Conto de Natal fiquei a conhecer mais um blog que vale a pena! :)

Beijinhos*

Anónimo disse...

Que grande lição de Natal, não é? :) Nada melhor que sermos nós proprios, por trás de um computador e para além dele...

Muito boa a ideia, gostei muito!

E com este Conto de Natal fiquei a conhecer mais um blog que vale a pena! :)

Beijinhos*

Clarissa disse...

É por estas e por outras que a net é mesmo um outro mundo ;)
Um abraço

Maite disse...

Cara Kaótica
(é a primeira vez que cara não vai bem com um nick) então...
Kaótica

E de repente parece que se conhecem os outros por aquilo que escrevem! será?! está demonstrado aqui, no seu conto, que não. Caramba! e como foi quando ele viu o pinheiro natural, e os laços e os anjos papudos lá em casa? :)

Gostei

Uma boa noite e um abraço para si

Anónimo disse...

;D
ele há coisas...
tão possiveis que até arrepiam!
*

Kaotica disse...

Obrigada a todos os participantes da 5ª. Edição que vieram aqui ler este conto e deixar palavras simpáticas. Quanto a possíveis desenvolvimentos ficam à vossa inteira disposição. O conto foi escrito com a finalidade de deixar coisas em aberto. Acreditem que não o voltei a ler pois se lesse de certeza que lhe encontraria muitos defeitos. Quanto aos vossos, acreditem que gostei muito deles e fiquei feliz por saber que apesar de tudo continuamos a ter um país de inspirados. Ainda bem que o V Império do Espírito de que falava Pessoa, ainda não é de todo impossível, só está adiado. Abraços para todos!

Mendes Ferreira disse...

magnifica TEIA....

_____________________!!!!!!!!!!


abraço.




sincero.

Anónimo disse...

Fantástico! Partilho totalmente da ideia do texto. Uma ideia fenomenal e original sobre a qual não me lembraria nunca de escrever.
Estas impressões que conseguimos dos outros no lado de lá do ecrãn é um engodo tão grande que acho que nos podiamos senitr burlados ou traídos se soubessemos qual a verdade e o material do outro que escreve do outro lado. E há sempre quem tente acreditar numa cara-metade que só se dá a conhecer com doses e doses de retórica e verniz pelo meio...

Feliz Natal :)

Anónimo disse...

Fantástico! Partilho totalmente da ideia do texto. Uma ideia fenomenal e original sobre a qual não me lembraria nunca de escrever.
Estas impressões que conseguimos dos outros no lado de lá do ecrãn é um engodo tão grande que acho que nos podiamos senitr burlados ou traídos se soubessemos qual a verdade e o material do outro que escreve do outro lado. E há sempre quem tente acreditar numa cara-metade que só se dá a conhecer com doses e doses de retórica e verniz pelo meio...

Feliz Natal :)

Anónimo disse...

Fantástico! Partilho totalmente da ideia do texto. Uma ideia fenomenal e original sobre a qual não me lembraria nunca de escrever.
Estas impressões que conseguimos dos outros no lado de lá do ecrãn é um engodo tão grande que acho que nos podiamos senitr burlados ou traídos se soubessemos qual a verdade e o material do outro que escreve do outro lado. E há sempre quem tente acreditar numa cara-metade que só se dá a conhecer com doses e doses de retórica e verniz pelo meio...

Feliz Natal :)

Anónimo disse...

Cheguei aqui , vinda do contolivre para lhe deixar o meu apreço pelo seu conto, natalício, actualíssimo...
Sempre houve pessoas que se corresponderam sem se conhecerem, nós é que nos esquecemos desse facto; quando chegavam a conhecer-se , às vezes, tudo corria bem, outras , era um desastre...
Afinal , nem foram tomar um cafezinho, antes de se meter outra vez no avião?

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