quarta-feira, março 21, 2007

Dia Mundial da Poesia

Homenagem a Ary dos Santos, poeta da revolução deliberadamente esquecido
Poeta castrado não! (José Carlos Ary dos Santos)


Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!


Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegar a poesia

quando ela nos envenena.


Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:


Da fome já não se fala

- é tão vulgar que nos cansa -

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?


Do frio não reza a história

- a morte é branda e letal -

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?


E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

- Um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

- Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia!


Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

2 comentários:

willy the pimp disse...

somos poucos, e é uma pena, os que continuamos a gostar de Ary dos Santos. Valeu

Camões XXI disse...

É pena sim, caro amigo, que poucos são os que dele se lembram ...

Mas há que manter a sua chama viva e que quem se lembre o recorde aos vindouros.

Ainda hoje, postei um seu poema em meu blog, que desde já vos convido a visitar.

Melhores cumprimentos,

Ricardo Matos.

(http://camoesxxi.blogspot.com/)

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