terça-feira, maio 08, 2007

Desempregados e precários, uni-vos!

Hoje li no Diário de Notícias que a CGTP diz que, em Portugal, 41,8% do total dos activos são precários e desempregados. Vamos supor que os números não andam muito longe da realidade. Há muito tempo que defendo que o desemprego e a precaridade são um calcanhar de Aquiles para o capitalismo global. A meu ver há-de ser por aí que este sistema económico deplorável há-de estoirar. Como pode uma economia estar de boa saúde se desperdiça tanta força de trabalho? Tantos meios humanos, tanta capacidade de produção. Os desempregados e os precários já não são hoje os que não querem trabalhar, nem um bando de delinquentes e diletantes que não se querem integrar no mundo do trabalho, embora ainda se possam vir a tornar em coisas piores. Não. Hoje em dia passar a ser desempregado ou a precário é um risco que todos os que se julgam seguros no seu emprego correm. E a juventude actual já nasceu, na sua maioria, precária e desempregada. Não tarda muito, eles vão estar em maioria.
Eu, por exemplo faço parte do número de licenciados desempregados. Sou representante da primeira leva de jovens que, na sua sede de liberdade do pós-25 de Abril, desde muito cedo sonhou poder alcançar a independência financeira dos familiares, sem sucesso. Comecei a trabalhar aos 17 anos numa gelataria amiga para conseguir algum dinheiro para os meus gastos (concertos, etc, etc.); já antes me tinha fartado de ir vender coisas de que não precisava para a Feira da Ladra, com o mesmo objectivo. Depois, aos 18, trabalhei pela primeira vez com contrato de trabalho, numa empresa de roupas da moda. Lá desempenhei tarefas de todo o tipo, desde trabalho de fiel de armazém, à contabilidade; aprendi a usar o computador, arquivava os documentos, fazia contactos telefónicos, trabalho de escritório, e no armazém despachava as encomendas para as lojas. Recebia mercadoria, conferia-a. Isto sempre à medida que estudava - e nunca chumbei nenhum ano, só andei descontente a saltitar de área vocacional em área vocacional. Trabalhei num centro comercial -- e nem me quero lembrar pois foi a minha pior experiência profissional: exploração e mau viver, fardas e chefes de loja ordinários, um nojo. Desisti. Mais tarde trabalhei numa editora de livros durante vários anos, sempre precariamente, fazendo um pouco de tudo, desde a correspondência, os contactos com os autores, as revisões dos textos, a contabilidade no computador... mas recebendo mediante uma categoria profissional inferior, mais mal paga. Todo esse tempo em que trabalhei nunca consegui tornar-me independente, daí se pode imaginar o ordenado. Felizmente sempre tive a família a apoiar-me. Entrei então para a faculdade e resolvi dedicar-me por inteiro aos estudos. Claro que isso só durou um ano; no segundo ano já não tinha ilusões daquela instituição, voltei a trabalhar numa livraria de centro comercial enquanto ia estudando. Nunca passei nenhum ano sem fazer algumas cadeiras e uns quantos cadeirões. Era uma trabalho compatível pois tinha a possibilidade de ler e estar a par das novidades. Num belo dia seguinte ao jantar de confraternização do dono da loja com as empregadas, onde se brindou ao futuro do negócio, nesse belo dia seguinte, a loja de manhã já estava trespassada; no jantar, ninguém teve a coragem de dizer nada, brindou-se. Na altura morava num quarto alugado, tinha finalmente saído de casa dos familiares e só tive uma solução: voltar a depender de toda a gente para poder continuar a viver. Quanto mais independente procurava ser mais dependente me tornava. Voltei mais tarde à tal editora, desta vez com recibos verdes, sempre a ganhar mal, sempre a levar o curso para a frente. Fui morar para os Açores. Lá, dei aulas dois anos, a ganhar mal, por não ter o curso acabado tinha apenas habilitação suficiente. Quando fiquei grávida descobri que se continuasse a trabalhar entregaria o meu ordenado para alguém tomar conta dos meus filhos. Desisti de trabalhar e decidi ser então eu a cuidar deles. Só o pude fazer porque sempre tive muita sorte de ter pessoas a ajudar-me mas ainda durante alguns anos não me sentia bem sempre que alguém com emprego me fazia sentir que não me esforçava o bastante para arranjar um emprego. Voltei com uma idade que me exclui automaticamente de todos os trabalhos para menores de 35 anos, a considerada "idade jovem limite". Não me encontro dentro do prazo de validade para os estágios para os jovens; agora oferecem-me as novas oportunidades -- para continuar quantos mais anos a estudar? Com que certeza de me darem depois um emprego digno?
Nunca parei realmente de trabalhar, não estou de férias prolongadas, passo todo o dia a correr de um lado para o outro para segurar as pontas. O que é certo é que não me poupo ao trabalho, pelo contrário, estou sempre a meter-me em trabalhos. Não me considero por isso uma pessoa preguiçosa, nem dondoca, nem parasita, nem burra. Antes pelo contrário, aprendi a lidar perfeitamente com esse estigma que a sociedade sempre procura lançar nas mulheres que não se envolveram no mundo do trabalho, que não decidiram pôr o emprego no primeiro plano das suas vidas, que não escolheram a felicidade suprema de se promover profissionalmente. Sou uma feminista que acha que as mulheres só perderam em ir trabalhar fora de casa; julgam que se emanciparam mas são apenas mais carne para canhão com que o sistema capitalista se alimenta e só vieram desvalorizar o mercado de trabalho pois, pelas leis da oferta e da procura, quanto maior a oferta de trabalho mais o seu preço se desvaloriza. O mesmo papel têm os precários hoje em dia. Dantes vivia-se remediadamente com o ordenado de um; agora não se vive com o ordenado dos dois, tem que se ir buscar mais fora dos ordenados. A propaganda bancária acena com molhos de notas, aliciando enquanto a publicidade incita ao consumo. Ser verdadeiramente livre é poder ir consumir também aos Domingos à tarde, nos hipermercados. Esse é o programa familiar que os grupos económicos promovem para si e para a sua família. Esse é o emprego que eles criam para oferecer aos teus filhos.
Em casa não há ninguém que se dedique aos filhos, à casa, à confecção de uma refeição digna e saudável, à gestão da economia doméstica. Daí a decadência da estrutura familiar e da educação das crianças, completamente desprezada e relegada para a exclusiva responsabilidade da Escola. As pessoas, as famílias, estão destruturadas e dizem que não têm tempo para nada. As pessoas estão precárias, infelizes e desesperadas. Talvez a Humanidade esteja a ficar bipolar (maníaco-depressiva) e ora se encontra endividada e desesperada, ora consome desenfredamente nos breves momentos do auge da euforia própria da depressão.
Acredito que vem aí uma geração de jovens precários e desempregados, uma "waste generation" que vai ter que exigir à sociedade o seu direito ao trabalho. Essa massa já começa a organizar-se. O Mayday parece-me uma boa ideia; se ganhar adeptos e se a nova geração entender que não pode aceitar qualquer biscate mal pago por que isso não só não irá resolver o seu futuro como irá prejudicar a luta dos que acreditam que os direitos do trabalho são para manter; se entenderem a tempo que a sua condição de precários não pode durar eternamente; se não aceitarem como um fado a sua condição de desempregados; se ousarem unir-se e se organizar. Em breve os desperdiçados do sistema vão ser muitos, vão dar muito nas vistas. Se não quiserem permanecer desempregados; se não quiserem permanecer precários. Não sei como é que o capitalismo global pretende gerir esta massa de gente descontente que se está a gerar. Nem ele.

2 comentários:

jpg - o sineiro disse...

Peço muita desculpa, mas hoje é só mesmo para deixar um abraço.

Kaotica disse...

jpg

Agradeço-te na mesma, se soubesses como compreendo a falta de tempo...
Um abraço para ti também!

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