quarta-feira, junho 13, 2007

Luisa sobe que sobe


O Estado é pessoa de bem

Madalena Barbosa

Público, 2007-06-09


À Luísa só lhe ocorre uma solução: ou morre trabalhando, ou suicida-se quando passar à reforma. Que o diga Luísa. Ingénua, crente na bondade das gentes, dedicou-se de alma e coração a ser uma mulher como se dizia que as mulheres devem ser. Casou, procriou. Muito nova, juntou sete lindas crianças que tratou o melhor que sabia.

E tentou saber muito - leu os livros de puericultura, os tratados dos psicólogos, os artigos das revistas.

O 25 de Abril deu-lhe uma alma nova. Num ímpeto, juntou-se às multidões que gritavam por liberdade e igualdade. Só então notou que essa igualdade era para todos, não para todos e todas. Por isso fez da sua causa a causa das mulheres. Até 1978 esperou, com pouca paciência, que as leis da família mudassem. Mas mudaram. Foi-lhe então possível libertar-se de um casamento que a impedia de trabalhar. As crianças já iam à escola. Finalmente podia fazer algo mais que trabalhar em casa, ser uma pessoa autónoma, uma cidadã participativa. E conseguia dormir algumas noites seguidas, depois dos anos das amamentações, gravidezes, viroses, pesadelos das crianças.

Então teve a sorte (?) de arranjar um emprego no Estado. Como era espertinha (diziam), fez tudo como diz a cartilha: criou as crianças sozinha e, ao mesmo tempo, trabalhou, fez uma licenciatura, um mestrado, formação contínua. Não me perguntem como, mas ainda fazia militância política e social. Milagres de quem esteve muito tempo presa. Correu, subiu, sobe Luísa, sobe a calçada.

Claro que nesse tempo tinha pelo menos uma garantia: um emprego. Um futuro: uma reforma. Protecção nas doenças, suas e das crianças: ADSE. Nem lhe passaram pela cabeça estas coisas modernas de seguros de saúde ou poupanças-reforma (quem dera que o dinheiro chegasse ao fim do mês!). Confiava no seu contrato com o Estado, pessoa de bem, que lhe garantiria o futuro.

Competente, rápida, assumiu cargos de responsabilidade, serviu o seu país. Fez-se gente, com um certo orgulho de o ter conseguido. Agora é cidadã sénior. De repente, sente-se culpada - por sua causa, e de mais uns milhares, Portugal tem "uma população envelhecida". Por isso terá de trabalhar mais e receber menos, dizem-lhe. Se viver muito tempo, vai fazer com que as reformas sejam ainda menores. Provavelmente morrerá a trabalhar. Nunca comprou uma casa, o que quer dizer que corre o risco de acabar sem abrigo. A sua reforma nunca pagará uma renda em Lisboa.

Luísa faz parte do odiado funcionalismo público. Bode expiatório, vómito onde se despeja o fel e o ódio. A minha última consulta à blogoesfera deixou-me pasmada. Sim, despeçam-nos, tirem-lhes "regalias", tirem-lhes promoções - queimem-nos? A função pública passou a ser o boneco que se queima, a bandeira que se espezinha.

Será que estamos a assistir ao "dumping social"? Fazem-se previsões a 50 anos. E Luísa olha para 50 anos atrás, e será que se podia prever o que se passa hoje? Quantas variáveis na evolução social, política, científica? Mas isto digo eu, que vejo os economistas reverem as suas previsões quase todos os meses.

À Luísa só lhe ocorre uma solução: ou morre trabalhando, ou suicida-se quando passar à reforma. Só assim poderá ser uma boa cidadã. De qualquer forma, nem com os netos poderá brincar, pois estará trabalhando. E se se reformar, ficará mais pobre, mais doente e a contribuir para as estatísticas do "envelhecimento da população". Definitivamente o suicídio. O "pessoa de bem" de certeza que agradece, pois a vida das pessoas agora são números. E quem não produz nem consome não é gente.

Como se chama à entidade que faz um contrato e não o cumpre? Especialista em questões de género.

Enviado por um amigo

1 comentário:

João Rato disse...

o pior: eles já conseguiram convencer e até conformar, grande massa dos activos, que quando chegar a vez deles, já não haverá idade, nem dinheiro,nem direito à reforma.
À cautela é melhor mesmo ir tratar duma PPR!E quem nos garante que quando chegar o tempo de reaver a poupança o dinheiro já more num paraíso!?

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