quinta-feira, junho 14, 2007

Sermão aos peixinhos da Net


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GAP, FALHA, INTERVALO; AUSÊNCIA.

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Voltámos.
Reticentes, renitentes e um pouco incontinentes.
Assim é.

Nos dias que correm no solarengo bocado fatiado e esventrado de país a que chamamos Portugal,

Assim é;
Voltámos.

O universo humano vai tão mal que nem dá para dizer o quão mal vai.

Ele é Iraque, ele é a puta desta crise, etc.
Por isso retomamos a tónica da esperança.
O que somos, como somos, ao que vimos.
Este vai ser portanto um texto religioso.
Um sermão.
E porque não?

Sermão de São Camarada Patrão aos peixinhos da Internet

Irmãos e irmãs
O que somos?
Ao que vimos?
O que nos trucida a alma e tolda a visão?
Em que é que passamos os nossos verões e invernos?
Em eterna labuta pela vida, mas sem saber o que valemos em nossa existência e para a dos outros.

Tu, que cobras 55 cêntimos por um café
Arrepende-te, irmão
Baixa o preço da divina bica
Pois tudo é Deus
Desde o grão da café à mais distante supernova

Tu, que usuras no imposto do tabaco
Arrepende-te irmão
Pois dos cigarros mais aspirados
Também saem ideias santas
De como destruir cancros e outras coisas nojentas

Tu, que cobras vinte euros por um cd
E persegues na internet quem tem IP
Arrepende-te irmão
A música é a sinfonia da vida
E o download (i)legal a fraternal maresia
Que a todos veleja, certa
Em direcção ao teu artístico concerto, um dia

Tu que aumentas a gasolina
E com isso o preço do suco das tetas da vaca
E das mais reles vinhas
Para não falar no pão
Na manteiga, na carne e na fruta
Arrepende-te, irmão
Vai enganar a cabra vazia
Que te deu à luz com valentia
Por não valeres um caralho
Com essa especulação sombria
Arrepende-te, irmão

Idem, para os irmãos das telecomunicações
E das TVs por cabo, filhos da puta, cabrões
Que cobram o couro e o cabelo
Por conteúdos de rabo
Sem não antes, com zelo
Deixarem crescer o apego
Dos telespectadores, seus escravos

E ainda para os gajos da luz
Com seus cérebros cheios de pús
Por ainda não terem percebido
Que quanto mais chulam o zé povinho
Mais acabam com o azevinho
Com que ornamentam
A coroa de espinhos
Que lá dos seus lugares de bandidos
Aplicam aos milhões de pobres de cristo
Com que calculam a margenzinha de lucro
E outros parâmetros fodidos

Tu, que prometes reformas
E dizes que este país assomas
Com a tua brisa celestial
À laia de herói nacional
Brincando aos políticos com tusa
Mas sendo tão impotente como a própria alma lusa
Arrepende-te irmão
Pára de enganar os profetas
E todos os outros ascetas
Pára de atirar esperança
No peso inerte na balança
E fala com os bancos, seguradoras e outras pestes
Ensina-lhes a refrear os apetites
E que há um Portugal melhor
Para quem queira ser mesmo livre
Úni-vos face à crise das crises

E caguemos no Presidente
Porque é dos que não empurra, nem faz frente
Simplesmente não está
Previsível espécie
De político, acéfalo, ausente

A parábola

No outro dia saiu um CD
Para miúdos, parecia, bem se vê
Com perguntas e respostas sobre o 25 de Abril
Vinha com um jornal qualquer
Seis euros e dez
Disse-me o homem da papelaria
Todo contente

Mas o que é esta merda?
É isto é que é ser português?
A porra do CD devia ser de borla
Ensinar devia ser o ariete do presente
Ensinar cidadania e história
História recente
Ensinar gente a ser gente
E não encher o bandulho
Usando memórias, cravos e outras vãs glórias

E vós, artistas da merda
Pintores, cantores e poetas
Flácidos actores de telenovelas
Intelectuais e pensadores da treta
Comentadores menstruais e analistas com cheta
Arrependei-vos
Pelo vosso silêncio de oiro
Como espiga podre de um tesoiro
Feito de curvas de barrigas
Por dietas milionárias despidas
Tudo é aparência, tudo é ilusão
Sem um mínimo de apego à vida
Sem um mínimo de revolução
Sem uma única ideia sentida
Fagulhita de criatividade
União, opinião reinvindicativa
Para que serve a arte então?
Deve ser para bater uma punheta
Sem utilizar a mão
Arrependei-vos, irmãos

E para finalizar,
uma palavrinha lá para a domus…

Tu, que pões os cornos mentalmente
A quem tens lá em casa, certamente
Com flirts e convites ausentes
Ao colega de trabalho, à colega ali à frente
Arrepende-te irmão, irmã
Ou despachas quem dizes que amas
Ou amas a quem cobres na cama
E fazes filhos imparável
Com quem não depois não estás
Deixa-te de patifarias inocentes
De quem ia comer um pastelinho de nata
E acaba a digerir a feijoada

Arrepende-te irmão, irmã.

Amén!

Poesia de intervenção.

Isto é poesia de intervenção
Pois é, pois é.
É poesia de intervenção.
Pois é, pois é.

É poesia de intervenção.

Eh, Camarada Patrão!


Aqui, antes não estava nada.
E, agora,
Continua a não estar.

in http://camaradapatrao.blogspot.com/2006/05/o-sermo-de-so-camarada-patro-aos.html



2 comentários:

João Rato disse...

Arreia-lhes camarada!
Quão semelhantes acho teus versos
aos de Almada quando os cotejo!
(Cena do ódio)
Direito à indignação,
dizia o Mário!
Irreverência,
dizia o Jorge!
Não me resigno,
diz o Aníbal!
Puta que os pariu!
Seremos mais que os termos estudados!
Seremos poetas, cantores e combatentes!
Avante camarada, junto a minha
à tua voz!
Parabéns pelas palavras espadas, Camarada Patrão!

Kaotica disse...

João rato

Foi exactamente o que me fez a mim lembrar -- a cena do ódio do almada -- um dos meus textos favoritos (como vês está aí ao lado, no link "a não perder". Por isso o surripiei e o trouxe para aqui, porque achei que era uma cena do ódio dos tempos contemporâneos.
Abraços

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