sexta-feira, abril 10, 2009

Sempre achei que andar em Lisboa a reparar era uma deambulação altamente surrealista. Em Lisboa já me aconteceu de tudo. Até uma vez numa noite num passeio ao miradouro da Graça para mostrar a um amigo açoreano e nós todos na conversa na esplanada a beber uns copos, de repentemente aparecem os bombeiros e as sirenes e tudo aos saltos por cima das mesas. Cães raivosos, Teresas Guilherme e seus muchachos numa mesa aos berros e eu a pensar são cães da droga, vêm ao cheiro. Os bombeiros cercam os cães ,a gente paga a conta e vem-se embora para o velho Volkswagen a rir e a dizer que aquilo era mesmo muito surrealista, aliviados alguns… outra vez foi aquela da pensão, em que se entra por uma rua, sobem-se um ou dois pisos e sai-se pelo outro lado. Na brincadeira fizemos o nosso amigo, toino, suspeitar que íamos pernoitar na pensão, arranjar UM quarto para os 3. Depois, quando ele já estava à toa, saímos pelo outro lado e ficámos à espera que ele se decidisse a continuar a subir. O que nós gozámos com ele por ali fora. Tantas histórias pelos miradouros, tocadelas e conversas até às quinhentas. Andávamos sempre a rir, como às vezes aqui em certos blogues.

Mas agora, que já não habito em Lisboa, é muito raro lá ir. Hoje porém aconteceu ir, já estava decidido que lá íamos em passeio de férias de Páscoa para sairmos todos um pouco do mundo um pouco virtual que artificiosamente criamos em casa. Mas eis que esse lado do real que é andar por Lisboa, mais uma vez se revela surreal, mais do que o virtual.

Andar por Lisboa a vaguear é sempre uma alucinação; uma viagem de eléctrico por Alfama é um filme decadente, kitsch, surreal, contraditório, destrutivo, fantástico. No bairro alto as paredes das casas estão cobertas de grafitis, tudo tem mau aspecto no exterior e depois aquele contraste do interior dos barzinhos e de certos restaurantes cuidados, modernos. As montras das lojas são completamente surreais e certos muros, certos pormenores, a mistura com as adegas típicas e as casas de fados, as toalhas surradas nos estendais, o tipo todo tatuado à porta da sinistra loja das tatuagens, tudo aquilo underground e também o povo falando de janela para janela nas surreais janelas das casas grafitadas.

Ali há uma certa margem de uma certa maneira que não é organizada. Lisboa é um pouco a expressão do kaótico.


Hoje andei por lugares onde em caso de um terramoto acontecer não ficaria pedra sobre pedra. Vale a pena visitar lugares assim e mostrá-los aos nossos filhos, para memória futura. Quem sabe quanto tempo ainda vai durar essa ruína. Lisboa precisava de ser arranjada a sério, em conjunto, numa espécie de plano para preservar o que ainda está de pé. Obra para fazer no nosso país não falta, mas a construção até agora dava mais dinheiro. Tanto edifício degradado que com a crise vai ganhar novos motivos para continuar ao desmazelo. Se acontece alguma coisa aquilo ali desaparece tudo em escombros. Adeus Lisboa de outras eras...

O tempo ficou cinzento, com vento agreste nos miradouros, os melhores testemunhos da imponência da cidade… ao longe, mas pode esse olhar distanciar-se quando já experimentou a estranheza do pormenor e da diversidade que se passa ali em baixo naquela cidade louca? É nos pormenores é que Lisboa é surrealista, as imagens desenrolam-se como num filme e o estranho ressalta e se impõe, único e irrepetível.

Como já viram, eu adoro Lisboa e tenho imensa pena de que não seja mais estimada e preservada. Já os meus filhos a vêm com maior distância e não lhes agrada muito a parte da decadência. Preferem voltar para o ninho, para o sofá e para os outros mundos virtuais que em nossas casas permitimos, ainda o que mais valeu foi os passeios nos eléctricos, novos e antigos. Conseguimos vir numa dessas viagens sentados à velha janela de madeira, aberta, de um desses eléctricos antigos a ver mais um filme. Antes, à ida para lá foi uma estrangeira a filmar todo o percurso apenas colocando o aparelho fora da janela, o que já de si deve depois se revelar um pouco surrealista. Pelo menos restarão um dia essas imagens e para meu uso exclusivo as que conservo na retina.

3 comentários:

Isabel Pedrosa Pires disse...

As energias positivas libertárias andam à soltam e a fluir por aí. Ao mesmo tempo estávamos a pensar nestas mudanças artísticas ou revolucionárias.

Beijos

Kaotica disse...

Felizes coincidências!!!

Beijos para vocês

Anónimo disse...

Há que destinguir entre "graffitis" de "graffitis": Existem autênticas obras de arte que preenchem espaços vazios e monótonos, como paredes, tapumes, painéis, etc... que embelezam esses locais e que são ao mesmo tempo formas de afirmação; dos verdadeiros "abortos", fruto de mentes atormentadas por psicotrópicos que conspurcam as paredes de edifícios, monumentos, habitações, vedações, viadutos, comboios, barcos, sinais de trânsito, tabuletas informativas e em qualquer sítio onde consigam colocar o seu "sinal" como um qualquer animal a demarcar o seu território para ser reconhecido pelas fêmeas. Melhor seria que não gastassem tempo e dinheiro a sujar aquilo que nem sequer foram capazes de ajudar a fazer... Deus lhes perdoe a estupidez!
Quanto às liberdades de opinião: é preciso que não colidam com os direitos das outras pessoas. Será que eu não tenho direito a que a minha casa permaneça pintada depois de eu ter pago para isso? será que não tenho direito a vêr claramente um sinal de trânsito ou um simples painel informativo?

Zé da Burra o Alentejano

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