quarta-feira, setembro 05, 2007

560...

Durante o período de férias tive tempo para reflectir e amadurecer algumas ideias que tinha mas que não passavam disso mesmo: ideias que depois no vórtice da vida prática não se traduziam em actos.

Uma delas procura seguir o exemplo de uma certa campanha que surgiu já há algum tempo – o Movimento 560 – o qual me parece correr o risco de cair no esquecimento. Tomei a decisão de, a partir do início de Setembro, passar a dar mais atenção à origem dos produtos que consumo, cingindo-me o mais possível aos produtos de origem portuguesa ou, pelo menos fabricados em Portugal: ou seja, aqueles cujo código de barras começa por 560…

Podem julgar que não é fácil e provavelmente têm uma certa razão porque a maior parte das pessoas acorre apressada a um super ou hipermercado e o seu objectivo é gastar o menos dinheiro que puder, ou despachar-se dali para fora com o que precisa o mais depressa possível, ou carregar para casa com o maior número de bens que o carro do supermercado comportar, ou conseguir poupar algum dinheiro nos bens necessários para poder gastar o resto num monte de bens supérfluos. Como todos nós já passámos por algum ou todos estes estados de espírito e muitos começam já a estar fartos deste seu próprio comportamento que torna a carteira leve e a consciência pesada (quem a tem e a preza), talvez o regresso de férias e o retorno à “vida normal”, seja um momento oportuno para repensar atitudes em que nos fomos mais ou menos inconscientemente viciando.

Entretanto, como por acaso – sou muito sensível aos “acasos” -- a revista da Proteste nº. 283 (Setembro/2007) trazia um estudo feito por áreas e zonas do país, apurando quais as grandes superfícies, supermercados e lojas onde os preços são mais baratos. Embora não esteja inteiramente completo (não encontrei um dos supermercados onde às vezes faço compras), pode servir de guia a quem se deseje lançar nesta aventura de passar a ser um consumidor mais cauteloso e exigente.

A minha última visita ao supermercado já foi coroada de êxito: só comprei produtos 560… tendo mesmo conseguido trazer para casa fruta portuguesa (no Alentejo cheguei a ver uns pêssegos cuja origem era “Portugal/Espanha” (!) – estariam misturados? Ou seriam do quintal do Saramago?)

O espírito é mais ou menos este: se não há bananas da Madeira, compra-se Rainhas Cláudias portuguesas! Se os melões são espanhóis, come-se meloas portuguesas. Acreditem que é uma aventura interessante e até estimulante, desde que se tenham apetites flexíveis, como é o meu caso. É até bem giro procurar nas prateleiras das bolachas as que são portuguesas e, como as há, uma pessoa sai de lá toda orgulhosa, com o ego nacionalista lá nos píncaros e a pensar coisas maravilhosas e reconfortantes como “se calhar se não estivéssemos na UE não morríamos à fome! Se calhar ainda estamos a tempo de passar sem ela!”

Está bem que não encontrei ali arroz português. O que é um espanto para quem tinha acabado de deixar para trás todos aqueles arrozais e me deliciado a comprar arroz made in Alcácer do Sal. Não comprei arroz! Hei-de comprar noutro sítio. E estava com muita pressa senão tinha feito o segundo passo da decisão: pediria para falar com alguém responsável e perguntava-lhe por que é que não havia ali arroz português e se a explicação não me agradasse (que quase de certeza não iria agradar!) pedia o livro de reclamações e escrevia: “consumo exclusivamente produtos portugueses e este estabelecimento não me oferece esta alternativa". Mas para isso é preciso ter tempo e muita paciência. Aqueles já estão marcados com o episódio do arroz e para a próxima visita não escapam.

Experimentem. Vão ver que ao princípio é divertido; depois pode tornar-se penoso, principalmente em certas alturas; mas depois a coisa começa a estar controlada: ali compra-se isto, acolá compra-se aquilo… e com o tempo acredito que se há-de poupar muito tempo porque o leque da oferta se restringe e já se sabe muito bem o que se vai à procura, não se anda de cabeça tonta a olhar para aquelas prateleiras todas a ver os nomes e os preços de 15 marcas de detergente. Acredito que a médio prazo tempo será dinheiro e que as mais das vezes o barato sai caro.

E digam lá se não nos tem saído caro julgar que a UE nos dava tudo de mão beijada e que podíamos deixar de produzir e viver felizes atolados em produtos mais baratos vindos de fora!

4 comentários:

Porca da Vila disse...

Que sorte eu tenho em poder comer fruta que vem direitinha aqui das aldeias próximas, daquela que às vezes até tem uma 'surpresa' lá dentro... [a bicharada não é burra e só ferra o dente na melhor]

Bela ideia essa do 560!


Xi da Porca

rendadebilros disse...

Acho muito interessante. Não sei é se tenho a tua paciência para andar a pesquisar... já tenho tão pouca paciência para ir ao supermercado...
E agora que os chineses estão a ser sensibilizados para o consumo de leite, não há leite nem português nem europeu para exportar...
Essa cabecinha não pára nunca!!!
Beijos.

Kaotica disse...

porca

Tive esta semana a surpresa de descobrir que aqui no burgo há um senhor que vem uma vez por semana com uma camioneta cheia de frutas e legumes para os vender na calada da noite, sem pesar nem nada, tudo a olho, como faziam antes os saloios (dos arredores de Lisboa). Já me tornei cliente!

Kaotica disse...

renda

Hoje fiz mais uma visita ao supermercado. Consolei-me a comprar produtos 560! E como ia acompanhada com uma pessoa de idade já a ensinei a fazer o mesmo. Ela desconhecia o 560 e ficou fã. Único produto não encontrado: lâmpadas (não as trouxe, mas ainda não reclamei. Primeiro vou informar-me se existem lâmpadas made in Portugal!)
Experimenta um dia destes que tenhas pachorra. Vais ver que até é empolgante!

Beijo

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