quarta-feira, maio 14, 2008

Que outros erros ainda teremos que sofrer?


Prélude à Mégalopolis
Album Mégalopolis <../disco/pmgpls2.htm>, 1972

Cette histoire
Commence dans vingt ans
Quand nos enfants auront vingt ans
Et que l'Orient et l'Occident
Respireront le même oxyde
Sous un soleil Celluloïd
Et que la vie sera splendide
Entre les Océans d'acide
Et les Florides de ciment...
Regardez bien,Mégalopolis
Trente millions d'humains
Perdus dans la fumée
Falaises de béton sur fleuves d'immondices
Artères cicatrices au ciel ensanglanté
Où les hélicoptères de l'Hélico-Police
Sont les stations-service de notre liberté...

Herbert Pagani

De que erro ainda estamos a sofrer?

Imagem daqui (ver texto)

Errro de Português [Oswald de Andrade]

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
.

terça-feira, maio 13, 2008

Santa Fé!

Não é em Fátima, mas podia ser!

Procura emprego? Também eles!

Recebo mails da NET-Empregos que me dizem ter emprego para mim: Assunto – Ofertas de Emprego para fulana de tal. Ao princípio ainda ia ver, agora a maior parte das vezes, francamente, nem abro.
Hoje abri, só a pretexto de escrever este post. O destaque era para os cursos de formação: “Invista em Si, Invista no Seu Futuro”, dizia. Ou seja a minha oportunidade de emprego era o emprego deles, que dão a formação. E eu pagava. Mas isto não é para arranjar emprego? Então como querem que antes de arranjar emprego ganhe dinheiro para lhes pagar esses cursos?
A escolha que me dão é esta: ou torno-me num professional da rede com o curso superior de internet e comércio electrónico; ou entro num curso New BCC English e passo a ser mais um dos 60 milhões de alunos em 17 países. Porreiro, pá, digo eu, e volto a fechar o mail. Este pode ir já direitinho para a lixeira, porque ofertas de emprego destas são lixo.

Claro que na secção de publicidade vem o créditozinho fácil e rápido, em 48 horas já a malta tem o dinheiro na conta e está metido em mais dívidas ainda antes de ter arranjado emprego. E apanhando-se com o carcanhol já se pode ir direitinho à maior loja online à procura dos saldos e promoções prometidos.
Enquanto me lembrar deste mail, vão todos direitinhos para a lixeira. Ou será que vou já fazer uma denúncia de SPAM?

segunda-feira, maio 12, 2008

Ando com vontade de sapar!

Por que será?

Os blogues são uns organismos esquisitos. Há um dia em que se está sem assunto e faz-se um post sobre a primeira coisa que nos vem à cabeça porque já é tão tarde e já se deu tantas voltas que não há tempo… nem cabeça para mais.

Outras vezes o assunto parece sério e urgente. Ter todas as possibilidades de gerar polémica e discussão. Está na ordem do dia, não é pessoal, toca a todos.

Mas depois os comentários vêm desmentir a escala de importância atribuída a uns e outros.

O mesmo acontece com blogues que se visitam ocasionalmente: uns falam de uma trivialidade qualquer que se passou com aquela pessoa, um estado de alma ou uma ida jantar fora: olha-se para os comentários e tem 25, 40. Costumo pensar: ena esta pessoa tem muitos amigos que visitam diariamente o seu blogue, vão lá como que marcar o ponto, dizer bom dia, boa noite, bom Domingo, mandar um abraço; outros contam o seu dia, o seu estado de alma em sintonia. Todos somados dá uma data de comentários.

Outros falam de assuntos da vida do país, falam de política, de justiça, comentam notícias do dia ou evocam a arte e a cultura. Comentários: muito pouco. Um ou outro igualmente interessante e consciente.

Por que será que sempre que aqui coloco um post sobre a União Europeia ninguém diz nada?


domingo, maio 11, 2008

O nosso futuro à Irlanda pertence!

KAOS


Campanha para o referendo ao Tratado de Lisboa começa na Irlanda (Euronews)

"Yes to Lisbon" - Sim a Lisboa - é o que dizem os empresários da Irlanda. Apoiados por Pat Cox, antigo presidente do Parlamento Europeu, lançaram esta segunda-feira uma campanha a favor do "Sim" no referendo ao Tratado de Lisboa.O referendo realizar-se-á no próximo dia 12 de Junho.
E o único partido que apela ao "não" é o Sinn Fein, de Gerry Adams. Argumenta que o Tratado de Lisboa retira aos pequenos países, como a Irlanda, o direito de realizar um referendo sobre políticas europeias, antes de, eventualmente, as vetar. Gerry Adams diz recusar que lhe retirem esse direito. "A ideia ultrapassa-me!", afirma.
Mas o que mais preocupa o governo é que apenas cinco por cento da população se considera informada sobre o Tratado de Lisboa e o que ele implica, segundo uma sondagem recente. E há mesmo quem não saiba que ele se realiza: "Não, na realidade, nunca ouvi falar" é uma frase que pode mesmo ser repetida por 28% da população, que diz sem sequer saber que vai haver um referendo sobre o Tratado de Lisboa.
A Irlanda é o único país que é constitucionalmente obrigado a referendar o texto.

Por cá Cavaco Silva já deu o OK. Por todos os países da Europa o processo foi rápido e eficaz, sem referendos nem grandes explicações às populações do que está em causa com a assinatura deste Tratado.
Resta agora o povo irlandês, único que vai ser ouvido sobre este assunto, porque a constituição irlandesa assim obriga. O futuro dos povos europeus está nas suas mãos mas, pelos vistos, a ele também ninguém informou da importância deste Tratado.
Agora vai começar a campanha em força. Calculo a propaganda pró-SIM que se vai fazer, os dinheiros europeus que se vão gastar para apoiar essa campanha... Apenas um partido é contra a assinatura, com consciência de que a Irlanda vai perder a sua autonomia de poder escolher se as políticas emanadas pela União Europeia convêm ou não ao povo irlandês. Talvez a última oportunidade de exercerem a Democracia.
Em países como o nosso, a assinatura deste Tratado à revelia da consulta pública e da possibilidade de se discutirem as vantagens e desvantagens deste Tratado é já um passo de gigantes em direcção ao fim da Democracia.
Que podemos nós fazer? Poderão os blogues ajudar a passar a palavra pelos blogues dos irlandeses apelando a cada um para que passe a palavra e não permita que este modelo de União Europeia possa vingar, em nome da Democracia e da Autonomia dos povos europeus?





sábado, maio 10, 2008

Educação para a cidadania da obediência cega ou da revolta?

Um destes dias a minha filha ligou-me da escola dizendo que estava a fazer tempo para a aula de apoio do Inglês e que ia ao bar comer qualquer coisa. Os alunos saem às 13h15 e os que têm apoio ficam à espera até às 13h45 e saem às 14h30. Como a minha filha vem sempre almoçar a casa, nesse dia ela leva algum dinheiro para comer qualquer coisa nesse intervalo para se aguentar até sair da aula.

Daí a bocado volta a tocar o telemóvel. Era ela nervosíssima e principalmente irritada porque eram quase horas da aula e ela numa fila do bar a ver os professores a passarem-lhe à frente.

Naquela escola há muita subserviência e escassas regras de democracia. Como querem ensinar a cidadania se os adultos envolvidos no processo educativo, sejam eles auxiliares, professores ou mesmo pais, subvertem essas regras de convívio usufruindo da sua posição superior. Disse-me que as auxiliares do bar atendiam os professores com toda a parcimónia e a eles, alunos, os mandava esperar e estar calados na fila até os senhores professores serem todos atendidos e despachados.

Não tinha conseguido comer e tinha que ir para a aula. Queria protestar. Calmamente disse-lhe que a escola tinha livro de reclamações, se ela o queria usar. Na altura concordou. Mas depois desligou, teve que ir para a aula. Estava quase a chorar de raiva, percebia-se pela voz.

Pouco tempo depois voltou a ligar-me: estava no bar à espera de uma tosta. Tinha dito à professora. E ela tinha-a deixado sair da aula para ir ao bar comer. Ficou mais apaziguada com os professores.

Às 14h30 fui buscá-la, vinha formosa e mais segura. Pelo caminho falámos no episódio e ambas concordámos como era injusto, que cada um deve ter a sua vez e ser respeitado e que ninguém nos deve passar à frente pois perante a necessidade de comer todos somos iguais.

Pode-se abrir uma excepção e atender primeiro um professor que está com pressa porque vai entrar para uma aula. Mas não se deve fazer disso uma norma e permitir que as crianças passem um intervalo inteiro numa fila e que acabem por ir para a aula sem comer. Depois vêem-se queixar que os meninos vão para as aulas sem comer porque os pais não os obrigam a tomar o pequeno-almoço em casa nem lhes mandam um lanche para a escola.

Lá dentro da escola os alunos são tratados como os menos importantes. Já houve Invernos em que a minha filha se queixava que estava frio na sala de aula e que a professora punha o aquecedor virado para si e não para a turma. Não existe por lá nenhuma sala destinada ao convívio dos alunos e cá fora o próprio Agrupamento reconhece que nas áreas exteriores há poucos espaços abrigados. Chegam a abrigar-se da chuva debaixo de umas mesas de ping-pong que há num recreio. As empregadas gritam-lhes que não podem estar nos corredores no intervalo e empurram-nos porta fora fechando a porta à chave.

Sim, naquela escola os alunos andam ao desabrigo, embora esteja numa zona predominantemente de média-alta burguesia. Daquelas em que a maioria dos pais nem vai à escola, são as carrinhas de ATL que levam e trazem as crianças, salvo algumas excepções de avós reformados que se ocupam deles e algumas mães ou irmãos mais velhos que estão por ali por perto.

Aqui, os exemplos de cidadania que vêm em caixotes e em peças separadas da união europeia vão servir às mil maravilhas para preencher a lacuna da falta de cidadania. Vão dizer aos nossos filhos que são cidadãos europeus e, como tal devem obedecer às leis europeias sem as contestar, aliás ninguém lhes vai falar em contestações, coisas como o Maio de 68 estarão abolidos dos programas de História, se for pela vontade do senhor Sarkozy.

Na escola continuaram a estar ausentes os verdadeiros valores e os exemplos éticos da cidadania, que aliás serão ainda mais afastados com a aplicação da lei da gestão e autonomia. Na escola irá funcionar a grande pirâmide bilderberg em que entes de mente obscurecida pela sede do poder e do dinheiro, através de fios invisivéis, mas cada vez mais descarados, enviarão as leis a aplicar na escola que por sua vez serão dadas, pelos ministérios dos governos em conluio, aos directores das escolas, que as farão cumprir aos professores titulares, que exigirão que os outros professores as cumpram dentro das suas salas, vigiando o seu trabalho a pretexto do seu desempenho ser avaliado, que por sua vez as ministrarão em forma de conteúdos aos alunos, nossos filhos.

Os alunos sofrem as consequências, estão na base da pirâmide, não contam como indivíduos mas sim como cidadãos habituados a não ter direitos logo a partir da idade escolar e a calar as trapaças do bar, a suportar e a obedecer à hierarquia. Como não há-de isto gerar a revolta dos jovens?

Ler sobre a Obediência

sexta-feira, maio 09, 2008

Felizmente para a senhora ministra há coisas mais importantes do que a saúde dos nossos filhos

‘‘Os pobres estão mais expostos aos riscos do amianto,
porque são os que utilizam telhas e caixas d’água de fibras de cimento’’
(veja aqui os riscos do Amianto)

Sim, infelizmente na escola dos meus filhos também existe um ginásio cujo tecto é feito de placas da Lusalite, contendo amianto. Sim, infelizmente fomos informados numa Assembleia de Agrupamento que a nossa escola é uma das 59% das escolas que o estudo do seu ministério refere. Sim, infelizmente a presidenta, que já se comporta como uma autêntica directora, lembrou-se que era o momento de abordar os representantes das associações de pais pedindo-lhes que levassem este problema para reuniões com a DREL e com a Divisão de Educação aqui do concelho. Infelizmente, chegou à conclusão que as associações de pais lhe serviam para alguma coisa: fazer pressão junto das entidades responsáveis para não ter que ser ela a tratar deste assunto pouco agradável. Infelizmente ia jurar que a senhora presidenta já sabia disto há muito tempo mas estava caladinha que nem um rato, pior: que nem uma ministra da educação. Infelizmente, comecei hoje logo pela manhã a ouvir a voz da ministra, num tom de voz absolutamente varrido pela estupidez. A tarada da sinistra, compenetrada do seu papel enquanto cúmplice participante da tramóia europeia, ficou uma fera de ser abordada com aquele assunto tão miserabilista, trazido para ali para um acontecimento tão importante em que um bando de paus mandados da União Europeia iam ouvir as instruções para aplicarem nas nossas escolas o plano diabólico da Cidadania. Por isso, tão convicta da sua missão, se abespinhou toda, esganiçando-se diante da jornalista que lhe perguntava o que tinha a dizer do relatório apresentado pelo seu ministério onde se referia a percentagem de estabelecimentos do ensino público onde as crianças são diariamente expostas aos efeitos cancerígenos do amianto. Mas, infelizmente, a ministra não quis comentar esta maleita. Infelizmente estava mais interessada em acompanhar os trabalhos da importantíssima conferência onde se ia tratar da introdução da disciplina da Cidadania nas escolas portuguesas de acordo com as exigências da União Europeia. Por isso não pude deixar de trazer para aqui a experiência dos espanhóis, nuestros hermanos para o bem e para o mal, o testemunho de um grupo de professores preocupados com a substituição no seu país da disciplina de Ética pela nova disciplina de Educação para a Cidadania, por directiva da União Europeia. Infelizmente é esta União Europeia que nos querem impingir! E ainda para mais com a agravante de sinistras placas de amianto dos anos 70 a pairar sobre a cabeça dos nossos filhos. Eis a vossa noção de futuro! Que ninharia é a saúde dos nossos filhos comparada com a vossa missão destrutiva! Em breve as nossas escolas também estarão minadas pelo cancro da vossa ideia de cidadania. O amianto dará cabo da saúde dos nossos filhos enquanto a vossa noção de cidadania lhes dará cabo da humanidade que ainda lhes resta.
(notícia da TSF para ler e ouvir aqui)

Noções de cidadania de acordo com a União Europeia


A Destruição da Educação em Espanha

Intervenção feita, por um delegado espanhol,

na Conferência Operária Europeia

pelo “Não” ao Tratado de Lisboa

(realizada em Paris, a 2 e 3 de Fevereiro de 2008)

Companheiros de toda a Europa, o colectivo de professores de

Trabalhadores e Jovens pela República (TJR), constituído em

Madrid, decidiu contribuir com esta comunicação à

Conferência Operária Europeia para dar a conhecer aos

companheiros a situação específica da educação em Espanha,

reflexo das directivas rumo à privatização que nos chegam de

Bruxelas.

A principal consequência da adaptação do ensino, a todos os

níveis, às necessidades imediatas do mercado (necessidades da

sociedade, como lhes chamam, eufemisticamente) tem sido a

sua destruturação, também a todos os níveis, cujos detalhes

passaremos a expor.

A privatização dos ensinos infantil, primário e secundário

(quer dizer, os ciclos da educação obrigatória em Espanha)

surge determinada por um modelo de acordos, que consiste no

financiamento público de centros privados, quer sejam

creches, colégios ou institutos. A recentemente aprovada Lei

Orgânica da Educação (LOE), que regula estes subsídios,

possibilita e incentiva o desvio de fundos públicos para centros

privados, ao entender que o Ensino já não é um serviço

público, mas um serviço de interesse geral, cuja

responsabilidade já não recai exclusiva nem principalmente

sobre o Estado. É tão grave e alargado o processo de

privatização da escolaridade obrigatória no nosso país que,

para dar apenas um exemplo, na Comunidade de Madrid,

governada pelo sector mais reaccionário do Partido Popular,

das novas vagas oferecidas no ensino secundário para o ano

lectivo de 2007/2008, só uma quarta parte corresponde a

centros públicos, e os outros três quartos pertencem a centros

privados e semi-privados (quer dizer, privados financiados

com fundos públicos). O colectivo de professores de TJR

iniciou diversas campanhas em defesa da Educação pública,

científica, laica e de qualidade, e entre elas encontra-se, como

eixo central, a exigência da revogação da LOE, que se focaliza

na privatização do ensino e permite aberrações como a que

ocorre na Comunidade de Madrid que acabámos de expor.

Submeter o Ensino secundário às necessidades mais imediatas

de um mercado em contínua flutuação leva à destruição da sua

estrutura e à redução dos seus conteúdos. Deste modo, as

disciplinas tradicionalmente fortes (Física, Química, Biologia,

Geologia, Matemática, Geografia, História, Língua, Literatura,

Filosofia) vêem os seus conteúdos limitados, reduzem-se

sistematicamente os seus horários lectivos e a sua importância

dentro do plano de estudos. Assim, por exemplo, as disciplinas

de Língua e Literatura, tradicionalmente separadas, convertem-

se numa só disciplina, o que implica necessariamente a

redução dos seus conteúdos. O caso da Física e da Química

ainda é mais dramático, pois convertem-se em matérias

facultativas da opção científico-tecnológica do bacharelato.

Em troca, surge uma nova disciplina, obrigatória para todos os

ramos do bacharelato, denominada “Ciências para o Mundo

Contemporâneo”, na qual se ensinará aos alunos,

entre outras coisas, “o uso racional dos

medicamentos”, “os estilos de vida saudáveis”,

“as catástrofes naturais”, Internet, ADSL,

telefones portáteis, GPS, etc., em detrimento dos

conteúdos próprios de duas ciências fortes como

são a Física e a Química.

Igualmente, perante a insistência da União

Europeia, aparece no Ensino secundário uma

nova disciplina denominada “Educação para a

Cidadania”, cujo único objectivo é a doutrinação

ideológica dos alunos pois, como se se tratasse

de um catecismo laico, pretende exaltar os

supostos valores da Constituição Espanhola e da

União Europeia, afastando toda a possibilidade

de analisar criticamente esses ditos valores.

Como exemplo, e de acordo com o objectivo

desta disciplina, há a acrescentar que

recentemente os institutos receberam, do

Ministério da Defesa, CD-Roms nos quais se

incentiva os departamentos a incluir no

programa da referida disciplina um tema onde se

fale das bondades do nosso exército nas suas

missões de paz no estrangeiro, sob as ordens do

mandato dos EUA, camuflados por detrás da

ONU ou da NATO. Nesta nova disciplina, como

na novela de Orwell (1984), a guerra é a paz. É a

forma crua encontrada pelo governo de obter

novos soldados que morram ou que matem – no

Líbano, no Afeganistão ou no Kosovo – para

fazer frente às graves dificuldades de

recrutamento que enfrenta a profissionalização

do Exército. O aparecimento desta nova

disciplina surgiu em detrimento da antiga

disciplina de Ética, cujo papel no ensino

secundário será meramente testemunhal, e da

antiga disciplina de Filosofia que, por um lado,

vai ver reduzido o número de horas dentro do

bacharelato e, por outro lado, vai ver os seus

conteúdos seriamente reduzidos, pois

desaparecem todos os temas relacionados com a

metafísica e a filosofia da ciência, ficando

apenas aqueles temas que se referem à filosofia

política, e – mais a mais – orientando-se para

uma possível legitimação acrítica da ordem

existente. O colectivo de professores de TJR

iniciou uma campanha em defesa da Filosofia e

da Ética, considerando estas disciplinas como

necessárias para a formação crítica dos alunos

enquanto cidadãos independentes e autónomos.

quinta-feira, maio 08, 2008

Aurora Borealis

Passou por aqui uma Aurora Borealis?

Talking Heads - Road To Nowhere

Hoje sinto-me assim...

Fenómenos magnéticos do terceiro grau

Imagem daqui

Um dia destes fui para pagar no supermercado com o cartão multibanco e nada. A menina da caixa passou o cartão umas quantas vezes mas não conseguiu a leitura. Por mero acaso tinha dinheiro que chegasse para pagar a conta e assim foi. Ficámos com a ideia de que o mal era da maquineta do supermercado.

Entretanto tentei levantar dinheiro e dava a informação de "cartão inválido". Experimentei o da minha mãe que costuma andar comigo mas o mesmo aconteceu. Depois foi a vez de tentar com o cartão de outro banco: pediu o código, fez tudo normalmente mas quando chegou a altura de tirar o dinheiro eu anulei a operação, ficando convencida que estava tudo normal. Usei então o da minha mãe porque a ideia era tirar dinheiro para lhe dar. Tudo decorreu na normalidade mas quando devia sair a quantia pedida, apareceu a informação "cartão inválido" e a indicação de que por razões de segurança o cartão ficaria retido: um a menos!

Resumido e abreviando: todos os cartões magnéticos que estavam na minha carteira ficaram desmagnetizados vá-se lá saber porquê. Pior, continuo a descobrir outras coisas desmagnetizadas que estavam perto: a minha pen deixou de poder ser lida, não acende a luz, está morta! Tudo o que lé estava se foi para um lugar ainda mais fantástico do que aquele para onde vai a água do mar na maré baixa.

Ainda estou para ver o que mais vou descobrir: receio por uns cartões do seguro de saúde da família quase toda que também lá estão na carteira.

Normalmente apanho choques eléctricos em tudo o que é coisa: portas dos carros, fios de ligar o computador, fogões eléctricos, até já me aconteceu fazer faísca ao tocar num bébé. Mas uma destas ainda não me tinha acontecido.

Dizem as pessoas com quem vou falando ou que já lhes aconteceu, ou que já ouviram dizer que andar de metro pode provocar milagres destes, ou mesmo que existem certas entradas de lojas onde a carga magnética pode apagar tudo o que de magnético por lá passa.

Mas eu não faço ideia onde isto terá acontecido: até já pus a hipóteses de ter passado um O.V.N.I. por cima da minha cabeça. O que quer dizer que pode voltar a acontecer não se podendo evitar.

Dou por mim a pensar: se o fenómeno fez isto aos cartões, o que terá feito à minha pessoa?

Os efeitos visíveis, ou antes, "sentíveis" foi a perda de tempo que tem sido ir aos bancos resolver estes assuntos. Grandes secas em filas e explicações, preenchimentos de papelada e débitos nas contas. E sabe-se lá se no dia que transpuser a porta de um qualquer banco não levo com outra descarga magnética que deita outra vez tudo a perder?

Meus amigos, fica o aviso: pelo sim pelo não muito cuidado com os novos campos magnéticos. Eles não matam mas moem. Pelo menos é esse o efeito imediato!




Curiosidade:

Magneto dos X-Man tem a capacidade de criar campos magnéticos extremamente potentes. Desde que esses campos magnéticos sejam produzidos por correntes elétricas, podemos nos aproximar, com certa expressão, dos valores dos campos criados por ele numa situação de combate. Assim, para simplificar, vamos supor que seu interior é um grande circuito elétrico solenóide (bobina). A energia magnética armazenada em um solenóide é dada por: U = ½ (u0 n2AL) I2
Onde U é a energia, u0 é uma constante igual a 4*3,14159265359 x 10-7 N/A2, n é o número de bobinas no solenóide, A é a área transversal, do solenóide, L é o comprimento do solenóide, e I é a atual geração do campo magnético. Vamos supor que Magneto seja internamente composto por um solenóide de 1000 voltas, com uma área transversal, de 0.01m² e tem cerca de 2m de comprimento.
Agora supomos que ele usa esse tipo de energia para levantar um automóvel 1.000 kg a 10 metros do chão, aumentando o seu potencial energético num montante U = mgh = (1000 kg) (10m/s²) (10m) = 100000 J.
Associando este valor à primeira equação, temos que, a fim de conservar a energia no seu campo magnético, Magneto deve gerar uma corrente de cerca de 2900 Amperes. E isso pode não ser tão bom para seu coração - assumindo que ele tem um.
(daqui)

quarta-feira, maio 07, 2008

Há sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz NÃO!


Pedido de demissão entregue ao Presidente da
Assembleia do Agrupamento Vertical de Escolas de Azeitão

Vai para três anos que, culminando um processo
democrático amplamente participado, tomou posse este
Conselho Executivo.
Assumimos, então, o compromisso de 'cumprir com
lealdade' as funções que nos eram confiadas, funções
que decorriam de um quadro legislativo bem diverso do
actual.
Neste exercício, democratizámos as relações
inter-pares, gerámos expectativas e esperanças,
fomentámos a iniciativa e a criatividade, quisemos
aprofundar a
relação pedagógica, libertando os professores de
tarefas menores, para benefício dos alunos.
Respeitando as pessoas e dignificando a Escola.
Porém, as regras mudaram a meio do jogo. É agora bem
diferente enquadramento legal que regula a nossa
acção.
Uma incontinência legislativa inexplicável minou e
desvirtuou os compromissos que assumíramos: não nos
propusemos asfixiar os professores em tarefas
burocráticas sem sentido, alheias ao objecto da sua
missão; não nos propusemos fragilizar o estatuto dos
profissionais da educação; não nos propusemos
submergir os docentes em relatórios, planos,
projectos, registos, sem que daí resultassem vantagens
ou benefícios para os alunos; nem nos propusemos
liquidar o espaço de participação democrática na
escola.
Com a actual publicação do Dec. Lei nº 75/2008
suprime-se tudo o que de
dinâmico, criativo e participado existia na gestão das
escolas.
A opção por um órgão unipessoal - o director, a sua
selecção num colégio eleitoral restrito, as nomeações
dos responsáveis pelos cargos de gestão intermédia
pelo director, são medidas que não têm em conta os
princípios de uma gestão assente na separação de
poderes entre os vários órgãos. Este diploma potencia
riscos de autocracia e não reconhece o primado da
pedagogia e do científico face ao administrativo.
Encerra uma lógica economicista e empresarial adversa
à verdadeira missão da escola.
Não valoriza nem reconhece a diversidade de opiniões e
a consequente construção de consensos como motores
privilegiados da mudança e da promoção de uma escola
de qualidade.
Não permite que a instituição escolar se constitua
como um espaço privilegiado de experiências de
cidadania.
Em suma, passados 34 anos sobre o 25 de Abril, o
modelo democrático de gestão chegou ao fim.
E aos órgãos democraticamente eleitos, convertidos em
comissão liquidatária, é 'encomendada' a tarefa de,
negando a sua própria
natureza, abrirem caminho a um ciclo de autoridade não
sufragada, de centralismo, e até de
governamentalização da vida das escolas.
Por considerar que o novo modelo de gestão atenta
contra valores e princípios que sempre defendi, e por
não querer associar-me à sua implementação, eu, Maria
Leonor Caldeira Duarte, apresento o pedido de
demissão do cargo de Vice-presidente do Conselho
Executivo do Agrupamento Vertical de Escolas de
Azeitão.

Com os melhores cumprimentos


Azeitão, 28 de Abril de 2008


Maria Leonor Duarte

terça-feira, maio 06, 2008

Paciência - Lenine

Na escola, atrás das grades

Imagem daqui

Fui à escola pagar as refeições do mês. A minha filha ligou-me. Tinham ido ver um teatro e não tinha mais aulas. Que sorte e eu ali dentro para a levar comigo. Dirigi-me ao portão e vários jovens fizeram o mesmo. Outros vinham para trás dizendo que o porteiro os mandara de volta para as aulas, mas a professora disse que não tinham aulas! O homem ficou logo meio perdido ao ver aqueles alunos todos juntos irem na sua direcção. Começou a barafustar e foi à pressa fechar os portões. Como não reparei que tinha aferrolhado tudo deitei a mão à maçaneta na tentativa de sair. Um jovem atrás de mim precipitou-se, julgo que na intenção de ajudar a abrir. Salta-nos então o homem vindo desencabrestado lá de trás e ruge possesso como eu nunca o tinha visto nem imaginado, com uma violência brutal na voz. Confesso que me assustei, fiquei estarrecida, nem sequer me deu para rir, como é costume. O homem parecia um carcereiro, um carroceiro, um arruaceiro. Os alunos recuaram e afastaram-se começando a dirigir disparates ao homem. “Cão”, disse um e pôs-se de quatro no chão – aquilo era surrealista mas naquele momento foi a coisa que fez mais sentido, o que foi estranho para mim. Cá fora vários pais estupefactos assistiam à cena sem nada dizer. Finalmente deve ter raciocinado qualquer coisa e decidiu-se a abrir-me o portão para eu sair. Começava eu já a sentir-me enjaulada, impotente e sem saber que atitude tomar, tão surpreendida tinha ficado com a tempestade repentina e o tom despropositado daquela cena triste.
A paranóia nas escolas parece estar se generalizando. Até os contínuos, seguranças ou lá o que é o homem se passam dos carretos sem mais nem menos. Aqueles gritos que deu aos miúdos pareciam jorros de palavras ríspidas a esbofetearem incontrolavelmente os alunos. Aquilo não foi um caso pontual, aquilo não aconteceu por acaso. Já não é a primeira vez que me acontece estar ali de passagem e acontecerem coisas deste tipo. Aliás é raro o dia em que entro na escola que não acontece qualquer coisa absurda e chocante. Que ambiente terrível para as crianças crescerem! Alguns em casa têm “famílias destruturadas” e além disso ainda têm a escola destruturada, as relações humanas destruturadas, um futuro destruturado à sua frente.
Durante todo o dia pensei na violência. De como a violência gera violência e da excessiva e desmedida falta de bom senso que reina nas escolas. O homem ao que parece é segurança e não tem um pingo de boa vontade a lidar com os miúdos. Não os respeita minimamente, não sabe conversar com eles, trata-os ao repelão. Apenas cumpre ordens rígidas de um Conselho Executivo cumpridor e desorienta-se sempre que se depara com uma nova situação. Ninguém o tinha avisado que àquela hora iam chegar grupos de alunos ao portão querendo sair. A falta de comunicação sempre foi apanágio desta escola e faz-se notar nas piores alturas. Sempre que é precisa a comunicação falha e de um lado da escola uns dão umas ordens e outros só têm instruções para cumprir o seu inverso. Naquele caso os miúdos não fizeram nada que justificasse uma reacção daquelas. Não tinham mais aulas, queriam sair. Se alguns não podem, outros há que têm autorização para ir almoçar a casa. Mas o homem não teve nada disso em consideração, actuou como um polícia burro incapaz de pensar pela sua própria cabeça, que se obstina a cumprir ordens por mais absurdas que elas sejam. Será hoje este um mal geral dentro das escolas?

domingo, maio 04, 2008

Hiper-Realismos da Sociedade de Consumo

Imagem daqui

«Eu não gosto do comercio pequeno por opção própria odeio conversa com pessoas que mal conheço adoro a anonimato dos grandes centros comerciais não tenho direito a fazer compras ao domingo?» (Comentário extraído daqui)

Oh meu caro amigo, claro que você tem todos os direitos do mundo, os deveres são para o povinho. Por que raio havia de um senhor como você de se ter que rebaixar a dar os bons dias ao Manuel merceeiro? Você é um executivo de sucesso, leva a semana inteira a bajular os superiores, ao menos ao Domingo que seja você a brilhar. Já o estou mesmo a ver: a sua Maria vem cá abaixo ao snack comprar-lhe o folhado de salsicha e o Record enquanto você se esconde mais um pouco debaixo dos cobertores. Ela chega, prepara-lhe o copo de Ice Tea em bicos de pés para não fazer barulho com os saltos altos não o vá incomodar e você mal ouve a porta do frigorífico logo se afunda mais nos travesseiros entregando-se mais ao sonho: ah, como aquele frigorífico está a abarrotar de coisas que você gosta! Lá vem a maluca que estava ontem no Elefante Branco, a mamalhuda. Traz-lhe um balde de gelo com o champanhe à cama e você fica de boca à banda a vê-la tratar do charuto com todos os requintes de malvadez. Nem lhe pergunta se quer, enfia-lhe o charuto antes que tenha tempo para falar e aproxima-se mais e mais e mais, tanta carne, e você sente-se sufocar sufocar sufocar. Acorda num rompante, a respiração ofegante, taquicardia da pior, e não vê a garina, nem o charuto, afinal tinha o almofadão em cima da cara, que horror. Ó MARIIIIIA!

A mulher entra no quarto, com o ar mais burro deste mundo, os saltos a fazerem um toc toc toc na cabeça do homem. Bom dia querido, chamastes? Trouxe-me o jornal? Claro que sim e o folhadinho já está a aquecer no micro-ondas. O homem atira com a roupa da cama, está agora de cuecas e meias pretas, horrorosamente nu à frente da mulher. Vai direito à casa de banho sempre de mau humor. Estava ele a sonhar com uma gaja tão boa e aparece-lhe este estafermo logo pela manhã, porca vida!

Leva o tabuleiro com os comestíveis em baixela de plásticos para a frente do televisor e bebe sôfrego uma golada de Ice Tea, tem a boca a saber a papéis de música da noite anterior.

Então querido, a que hiper é que vamos hoje?

Sim, hoje é Domingo, dia de irem ao hiper. A mulherzinha já só pensa em fazer figura ao lado do maridão, a encher o carrinho para as outras que lá andam cobiçarem. Olha, estás a ver, já fiz a lista das coisas que temos para comprar. O homem dá um relance e vê logo carradas de erros de ortografia, carradas de sacos cheios de ninharias para carregar para casa. Ainda bem que no hiper pode andar no anonimato!

Lá acabam por sair ambos para um feliz Domingo no hiper. À chegada uma fila de carros, o parque de estacionamento a abarrotar. A mulher ao seu lado não pára de falar mas ele já nem a ouve, está a pensar na melhor forma de dar o golpe do baú aos fundos do QREN e como será em breve fácil despedir aquele gajo que tem a mania que é mais esperto que ele. Dão voltas e voltas à procura de um lugar. Merda! O gajo à sua frente tem o carro que ele gostava de ter. Vira na primeira oportunidade. Ali está um lugar, afinal é um tipo de sorte! Um carro recua com perícia e habilmente come-lhe o lugar. Cambada de sacanas! Grita à Maria que abra o vidro para atirar impropérios ao outro: Filho da P… A loura platinada abre a porta do carro e atira com as mamas para fora da viatura. Reconhece-as. Como está, senhor engenheiro! Fica branco. Ao seu lado a mulher pede-lhe encarecidamente que a lembre de comprar aquele detergente que ela gosta, como é que se chama, o do anúncio, lembras-te querido, que branco mais branco não há. Por que não te calas? O homem volta a arrancar carrancudo. Quase risca o carro a descer mais um nível na rampa vertiginosa em caracol. Lá em baixo arranja um lugar. Dirigem-se em passo apressado, determinado para a escada rolante. A meio da subida cruzam-se, vejam bem, com o senhor Manel. A mulher cumprimenta-o efusiva. O homem atira-lhe um cumprimento superior. Como está o senhor engenheiro? Quase lhe adivinha a ironia no modo como pronuncia a palavra engenheiro. Os merceeiros irritam-no, sabem sempre o que não deviam saber. Finalmente entram no grande templo do consumo, a mulher fica com os olhinhos a brilhar, que emoção. Ele, nem por isso. Apenas sente a liberdade de poder estar ali a um Domingo, depois de tantos anos de regulamentações e centralizações, conseguiu-se os Domingos. Finalmente venceu a ideia liberalista que lhe permite comprar o que quiser, quando quiser, às horas que quiser. A liberdade de estar ali anónimo sem ser visto a carregar sacos e mais sacos ao lado da bronca da esposa. A liberdade que lhe dá o poder de compra, apresentar os cartões de crédito à populaça gulosa. De repente novo cumprimento, desta vez mais familiar: então ó Silva, nas comprinhas? Com está senhor engenheiro? Pior não podia ser: logo o chefe e bem acompanhado. Chatice, ele a querer passar o Domingo na liberdade do anonimato e todos lhe aparecem, logo o chefe. O hipermercado é agora um labirinto sem saída. Quem mais irá encontrar ao Domingo, no hiper?

Poema à Mãe



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!


Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!


Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!


Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.


Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!


Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...


Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração

ficou enorme, mãe!


Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;


ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;


ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."


Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.


Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

in "Os Amantes Sem Dinheiro" (1950) Eugénio de Andrade

sábado, maio 03, 2008

Maio de 68: a ressaca dos 40

Grande jantarada a de ontem, meus amigos. A ressaca foi fatal. Acordei de mal com o mundo, com um mau humor do capeta, como diz uma amiga brasileira. Quando se passa uma noite na chalaça, depois já se sabe que vem o reverso. Claro que as ressacas são saudáveis, provocam uma consciência da realidade mais aguda, como o Fernando Pessoa dizia, merda, estou lúcida! E a lucidez em dia de ressaca é uma coisa terrível porque não poupa nada nem ninguém.
Vejam lá que acordei a ouvir no rádio uns senhores a falarem do Maio de 68. No meio de muitas baboseiras que para ali disseram, fui esperando que pelo menos um deles aflorasse a questão do Maio de 68 ter sido uma reacção colectiva dos jovens universitários franceses contra o consumo e contra as malhas do sistema capitalista. Mas não, quem se presta agora a reescrever a História, prefere lembrá-lo como um movimento dos miúdos maus das famílias boas de onde sairam pessoas que hoje em dia estão no poder (e até no governo Sarkosy), como se de todas as gerações não saissem sempre pelo menos uma boa meia dúzia de filhos da puta traidores das causas que antes perfilhavam. A tendência (e a preferência) é esquecer os outros, a massa, e lembrar estes.
Dei mais uma volta na cama, sem sentir o peso de estar a ser responsável por uma família destruturada: as crias tinham ficado entregues em boas mãos, desta vez não esperavam o pequeno-almoço à hora do almoço, como acontece às vezes ao fim de semana. Confesso que mesmo assim não foi fácil reagir, talvez até desta vez tenha sido mais difícil. As ressacas vão sendo cada vez mais severas, como a lucidez resultante delas.
Durante o dia giboiei pelos sítios, sem pachorra para nada. Não me apetecia sol, nem ar livre, nem comida. Só uns tragos na Boémia me souberam bem. Voltei para casa ansiosa por me estender na cama. Li uns artigos sobre... o Maio de 68. A mesma sensação voltou: dizia um dos artigos que a miúda de uma fotografia que simbolizou a presença das mulheres no Maio de 68, encavalitada aos ombros de um colega, de bandeira em punho, no meio da multidão, afinal doiam-lhe os pés e estava ali porque lhe disseram: se me pegares na bandeira, deixo-te trepar para os costados e carrego contigo nesta confusão. O jornalismo cospe no próprio prato onde come e vem advertir-nos para o perigo das imagens poderem ser enganosas: a partir de agora qualquer imagem não passa de uma falácia tão grande quanto a sua máxima "uma imagem vale por mil palavras". Eu diria antes: uma revolução vale por mil imagens. Afinal aquilo do Maio de 68 foi uma grande banhada... e nós que andámos a vida toda à espera que os jovens estudantes voltassem à carga, assumindo um dia destes uma posição consciente em relação ao sistema económico e político! Porque os períodos de revolta são cíclicos e as contestações dos jovens de 68 ainda não se cumpriram, tendo-se ao contrário tornado mais urgentes. O meu pai costumava dizer que se não se é revolucionário aos vinte anos, nunca mais se é revolucionário. O que estes artigos nos vêm dizer é que aquilo era tudo meninos filhos de gente bem, a estudar na Sorbonne com o dinheiro dos papás e que assim que herdaram o império, deitaram mãos à obra deixando as convicções de parte. Não duvido que em alguns casos isso tenha acontecido, mas foi só isso que aconteceu? As revoluções são momentos de ruptura, gritos de revolta contra o sistema instituído. Irrompem para afirmar o seu não absoluto a uma realidade que não aceitam, com a qual não querem pactuar.
Evidentemente não vivi o Maio de 68, mas assisti a uma revolução em que, logo a partir do primeiro momento em que aconteceu, as massas sairam para a rua gritando o seu descontentamento com o que tinham antes e atirando cravos a tudo o que lhes acenasse com a liberdade desejada. Correu mal? Enquanto durou, correu bem, mas durou pouco. Vieram depois os políticos tomar conta da revolução, instituí-la, e ela acabou, fim do processo revolucionário. Chegámos ao ponto a que chegámos, é verdade, uma escória apoderou-se do sistema, alguns até foram maoistas! São os tais oportunistas sedentos de poder que tanto empunham uma bandeira como vendem a alma ao diabo. Mas isso nunca lhe há-de tirar o mérito que teve: quem assistiu, quem hoje vê as imagens, pode ver as marcas de uma enorme felicidade nos rostos e a expressão da enorme solidariedade que então se estabeleceu: parecia que naquele momento todas as utopias se podiam concretizar. Depois veio o Soares, o mon ami Miterand , os fundos da CEE, a destruição de todos os recursos em troca de dinheiro fácil. Lançaram o engodo e acenaram-nos com promessas de melhoria de condições de vida. Depois de nos lançarem a corda foi só puxar o laço. E daí em diante foi de mal a pior, até ao descalabro em que nos encontramos. Aconteceu cá e aconteceu um pouco por todo o mundo, com todas as revoluções.
Se hoje o povo está novamente carrancudo e infeliz é porque nada daquilo se cumpriu. Se o jornalismo se presta a deturpar a História é porque sabe que a memória é curta e manipulável. Se em França está um Sarkozy no poder e por todo o mundo os líderes são seres repelentes e corruptos é porque o Maio de 68 não se cumpriu. Vivemos atolados no mesmo sistema capitalista anterior a todas as revoluções, apenas mais refinado que, como um pântano, nos suga e nos oprime.
Como ontem cantava o Zeca a revolução é para já. Reafirmo e acrescento: a revolução é para sempre!




Mai 68

Pela Língua Portuguesa, assine!


MANIFESTO
EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA

CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO

sexta-feira, maio 02, 2008

Jantar Blogosférico III

Nós vamos pegar o touro
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça
La-la-la-la-la-la-la-la-la-la-la-la

Já só penso como vai ser bom rever alguns e conhecer outros!
Grande jantarada vai ser esta!
Até mais logo, pessoal!

quinta-feira, maio 01, 2008

Força, Zé!

Todo o trabalhador é um operário!

Solução brechtiana para o desemprego


Esse Desemprego

Meus senhores, é mesmo um problema

Esse desemprego!

Com satisfação acolhemos

Toda oportunidade

De discutir a questão.

Quando queiram os senhores! A todo momento!

Pois o desemprego é para o povo

Um enfraquecimento.

Para nós é inexplicável

Tanto desemprego.

Algo realmente lamentável

Que só traz desassossego.

Mas não se deve na verdade

Dizer que é inexplicável

Pois pode ser fatal

Dificilmente nos pode trazer

A confiança das massas

Para nós imprescindível.

É preciso que nos deixem valer

Pois seria mais que temível

Permitir ao caos vencer

Num tempo tão pouco esclarecido!

Algo assim não se pode conceber

Com esse desemprego!

Ou qual a sua opinião?

Só nos pode convir

Esta opinião: o problema

Assim como veio, deve sumir.

Mas a questão é: nosso desemprego

Não será solucionado

Enquanto os senhores não

Ficarem desempregados!

Bertold Brecht

(retirado daqui)

Catástrofe (anti)natural da Globalização


Cartoon by Khalil Bendib

«Ramo após ramo, profissão após profissão, uma revolução convulsiona o mundo do trabalho, no qual quase ninguém será poupado. É em vão que políticos e economistas procuram ainda substitutos para os empregos de fato-macaco que vão sendo extintos na construção de navios da Vulkan, nos estaleiros de aviões da Dasa ou nas linhas de montagem da Volkswagen. O medo de perder o posto de trabalho há muito que penetrou nas salas dos empregados de escritório e alcançou os sectores que, até aqui, eram os mais seguros da economia. Os empregos de uma vida inteira tornaram-se biscates, e quem ainda ontem tinha uma profissão de futuro pode ver agora as suas capacidades transformadas em saber inútil.

Não se vislumbra o fim da crise do emprego. Muito pelo contrário: após avaliação dos levantamentos por parte do Banco Mundial da OCDE, do McKinsey Global Institute, do Grupo de Pesquisa dos Líderes do Mercado Mundial para o Aconselhamento de Empresas, assim como de numerosos ramos de serviços e de relatórios de negócios, os autores deste livro chegam à conclusão de que nos próximos anos adicionais 15 milhões de trabalhadores e funcionários da União Europeia irão temer pelos seus empregos a tempo inteiro, quase o dobro do que no Verão de 1996 já estavam inscritos no fundo de desemprego.

Os beneficiários da economia sem fronteiras gostam de explicar a crise como se fosse uma espécie de processo natural. «A competição na aldeia global é como uma grande cheia:ninguém lhe consegue escapar», profetizou em 1993 o então director da Daimler-Benz Edward Reuter. Após três anos e a extinção de um milhão de postos de trabalho, Heinrich von Pierer, timoneiro do grupo Siemens, repete a mesma mensagem com as mesmas palavras: «O vento da competição transformou-se numa tempestade e o verdadeiro furacão está para chegar.» A integração da economia para além de todas as fronteiras não é, de forma alguma, determinada por um progresso técnico linear que irrompe e ao qual não há qualquer alternativa. Ela é, sim, o resultado de uma política governamental conduzida conscientemente durante décadas pelas nações ocidentais industrializadas, à qual se dá continuidade até aos dias de hoje.»


(excertos de A Lei dos Lobos, in A Armadilha da Globalização - O Assalto à Democracia e ao Bem-Estar Social, Hans-Peter Martin e Harald Schumann, Alemanha, 1996, Terramar)

Working Class Hero - John Lennon

DIA MUNDIAL DO TRABALHADOR

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